Li e reli o artigo de opinião intitulado “Boli”. Fiquei ainda mais estimulada a pensar Ponta Delgada, porque afinal de contas, parece que José Manuel foi, ou é, um leopardo, que assegurou a maior autarquia pela barba por fazer e pelas papas e bolos.

Mas, enfim, não é de Bolieiro nem do autor do referido artigo que irei escrever.

Hoje prende-se mesmo com uma questão inenarrável, que merece ser pelo menos contada. A história de Ponta Delgada, capital da cultura.

A candidatura à distinção de capital europeia da cultura, de acordo com comunicado disponível na página da Câmara Municipal, parte de uma iniciativa que remonta a 2021, ano recente que parece ter acontecido há décadas. Na verdade, poderia ser uma candidatura remontada ao ano que quisessem, que continuaria sempre ferida de segundas intenções, desde a sua raiz. Não interessará esmiuçar os motivos para tal, mas importa referir que 2021 não foi um ano inocente, sendo o primeiro do XIII Governo Regional dos Açores, e um ano de eleições autárquicas. O resto, como diria o Secretário-Geral das Nações Unidas, é só fazerem as contas.

Foi um esforço meritório, de uma equipa pequena, mas profissionalizada, que procurou no embrião da candidatura, transformar o panorama cultural, não só de Ponta Delgada, mas dos nove bairros subjacentes que constituem o nosso arquipélago. Foi um esforço malogrado, porque assim que lhes foi possível, foi coaptado para outros assuntos que não serão de trazer a terreiro no momento.

A equipa técnica e capacitada deu lugar a outra coisa. E Ponta Delgada não foi distinguida como Capital Europeia da Cultura.

Entretanto, devendo ao espírito social da iniciativa e ao esforço empreendido pelas cidades que chegaram mais perto do galardão, Pedro Adão e Silva anunciou que Ponta Delgada, e mais duas outras cidades, seriam capitais portuguesas da cultura, nos anos vindouros. Com direito a financiamento próprio, da parte do Ministério da Cultura, e com direito a plano de atividades e revitalização da estratégia de gestão cultural de cada município.

O presidente da câmara homónimo do senhor ministro permanece, até ao momento, silencioso em relação ao desenvolvimento deste assunto. Por onde parará o protocolo por assinar referente a esta questão, é uma pergunta que muitas e muitos agentes culturais continuam a fazer. E quando chegará a lufada de ar fresco que uma cidade cosmopolita necessita para crescer face ao incremento da gentrificação e do turismo?

O senhor ministro esteve em Ponta Delgada no passado dia 5 de dezembro. Reuniu com agentes culturais e visitou espaços e patrimónios, de Natália ao Coliseu. Não assinou protocolos referentes a este compromisso. Coisa que veio a fazer, com Braga e Aveiro, dias depois. Trata-se de um compromisso que envolve dois milhões de euros, por ano, para o desenvolvimento da cultura municipal. Trata-se de uma necessidade básica, de Ponta Delgada e dos restantes nove bairros, que está esquecida e maltratada pela atual gestão. Preferimos um diretor que se preocupe com estes assuntos, e não se limite a visitar fortes enquanto empregados lhe seguram o guarda-chuva para ele ter as mãos livres para dissertar imaterialmente.

Onde anda Ponta Delgada, capital portuguesa da cultura?

Aguardamos. Até lá, lembrem-se que a cultura pode e deve ser um motivo fundamental para levar à praça nas várias eleições que nos promete 2024.  Levar a Cultura a sério.

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