As eleições legislativas dos Açores são um prelúdio estimulante para os próximos dias que se adivinham agitados. Se debruçarmos atenções naquilo que foi o desfecho eleitoral na Região, a primeira nota de destaque, terá de ser a percentagem de abstenção que se cifrou nos 49,7%. Este valor é, indubitavelmente, alarmante.

Contudo, há que fazer uma ressalva para o contexto açoriano, uma vez que um número significativo de eleitores recenseados incidirá em cidadãos espalhados pela diáspora, tão característica da nossa região, sendo o valor técnico provavelmente distinto do valor na prática. Além disso, se olharmos para 2020, há um incremento considerável da participação dos eleitores, ainda que manifestamente insuficiente.

Quanto aos resultados eleitorais propriamente ditos, verificamos que a coligação PSD/CDS/PPM conseguiu garantir mais 1 mandato, comparativamente às eleições de 2020, perfazendo um total de 26 mandatos, num resultado que permitiu aos sociais-democratas alcançarem mais de 42% (48.668 eleitores) das intenções de voto.

O PS, porventura o grande derrotado da noite eleitoral, viu enfraquecida a sua força parlamentar, por via da diminuição de 2 mandatos, sendo que na sua totalidade, contará com 23 deputados na nova configuração parlamentar, fruto dos 35,9% (41.538) de votos que lhes foram imputados.

A par da derrota socialista, é ainda pertinente enfatizar que o BE perdeu o grupo parlamentar de que dispunha aquando da eleição em 2020, ficando agora representado por apenas 1 parlamentar.

O resultado mais vincado, decorrente das eleições do passado dia 4, terá sido aquele obtido mais à direita. Com efeito, o Chega registou vigorosamente o reforço da intenção de voto do povo açoriano em cerca de 4%, totalizando 9,2% (10.626) de votos, correspondentes a um aumento de 3 mandatos em perspetiva comparada com o ato eleitoral anterior (2020).

Também o Chega foi o partido que mais capitalizou com a redistribuição de mandatos provenientes do Círculo Regional de Compensação, que tradicionalmente beneficia os partidos de menor dimensão, num total de 2 mandatos em 5 possíveis.

É ainda relevante focar no resultado da Iniciativa Liberal, na medida em que, pelo facto de ter sido o partido responsável pela queda do elenco governativo em exercício de funções, seria viável conjeturar que aquele partido poderia ser visto como responsável pela volubilidade política na Região, algo que não se verificou, tendo mantido a representação parlamentar alcançada em 2020, graças ao Círculo Regional de Compensação, tal como o PAN, que também continuou a merecer a confiança dos Açorianos, por via dos mecanismos dispostos através do referido Círculo.

A configuração dos resultados eleitorais apenas permitiria a formação de um governo de alternativa à coligação PSD/CDS/PPM caso todos os partidos com mandatos se unissem, cenário este marcadamente improvável. Os dados estão lançados e será o PSD/Açores que terá a palavra fundamental quanto ao futuro da governação na Região.

A pergunta que todos queremos ver respondia é a seguinte: Irá o PSD/Açores, na pessoa de José Manuel Boleiro diluir a linha vermelha traçada pelo líder nacional do partido?

À primeira vista a resposta será negativa.

Todavia, o líder social-democrata já fez saber que se trata de um homem de consensos e estará disponível para dialogar, tanto mais à esquerda (PS), quanto à direita (CH).

Naturalmente, por força dos resultados obtidos, terá de procurar, no mínimo, um acordo de incidência parlamentar. Se optar pela primeira opção, alocará ao Partido Socialista a responsabilidade de viabilizar aqueles que reúnem as condições necessárias à formação de governo.

Quererá o PS ver-lhe imputada tal responsabilidade depois de tamanha desilusão eleitoral?

Por outro lado, se a coligação optar pela segunda possibilidade e, sendo o Chega visto como um partido de protesto, estarão reunidas as condições fundamentais para uma governação consistente?

Conseguirá a coligação PSD/CDS/PPM a estabilidade necessária para implementar reformas fundamentais que transformem o paradigma social e económico do povo dos Açores?

Aguardemos.