Bispo realizou 43 viagens em três meses. “Escutou”, promoveu a “proximidade” e decidiu “fazer uma renovação profunda nas estruturas da diocese” referem leigos e jornalistas que o consideraram a figura do ano

Completa-se no dia 15 de janeiro um ano desde a chagada do 40º bispo de Angra à diocese e pode dizer-se que, possivelmente, num só ano já experienciou melhor a geografia da diocese que muitos açorianos. Em 12 meses visitou todas as ilhas e concelhos, alguns mais do que uma vez, contactou e escutou centenas de pessoas, a começar pelos jovens.

Esta prioridade tinha ficado bem definida no dia da sua entrada. O pretexto era a Jornada Mundial da Juventude, esse horizonte temporal que exigia rapidez (faltavam apenas seis meses) para que a mobilização final dos jovens fosse uma realidade.

“Nenhum jovem açoriano deverá ficar de fora a ver passar os aviões ou os navios e não falo apenas dos ligados às paróquias ou movimentos. Todos têm lugar e voz! A tudo o que tenha a ver com Jovens ou Jornada Mundial da Juventude, darei prioridade na minha agenda deste ano. Gostaria de poder entrar também na vossa agenda e caminhar convosco”, indicou.

Mas, o que D. Armando Esteves Domingues tinha em mente seria uma convocatória mais duradoura no tempo, como ficaria provado na missa de envio dos jovens micaelenses à Jornada.

“Ide e voltai, por favor. Não fiqueis lá porque precisamos de vós. Precisamos de multiplicar pela nossa diocese, cidade, paróquia, bairro, lugar de estudo ou trabalho o hábito de `ter pressa´ para ver um mundo melhor, pessoas e povos em paz, toda a criação amada e defendida porque só temos uma terra. Ide e trazei Jesus nas vossas vidas, nunca o deixeis de parte. Vinde, por favor, para dizer se valeu a pena e se vale a pena gastar a vida por ideais que não se resumem numa foto”, pediu o bispo de Angra.

Os encontros com os jovens repetiram-se em todas as ilhas. Até no cume da montanha do Pico, o lugar mais alto de Portugal, onde o bispo subiu acompanhado de mais de uma centena de jovens, alguns deles jornalistas.

“Quando me perguntaram se estava disponível para fazer esse trabalho disse que sim na presunção de que sendo o bispo o ritmo seria suportável, mas no caminho foi D. Armando que me foi ensinando a colocar os pés e a respirar para chegar ao fim” afirmou Rui Paiva, na altura jornalista da Lusa e hoje Diretor do jornal Açoriano Oriental, que entendeu a `lição´ do prelado como uma metáfora de “um estilo que deve ser próprio da Igreja de ajudar a superar as dificuldades da população, da sociedade numa região como a nossa, com tantos problemas sociais, que não tem tido o amparo adequado e D. Armando tem conseguido posicionar a Igreja, como essa rede de amparo, envolvendo todos”.

A proximidade e a simplicidade têm sido duas das qualidades mais destacadas no bispo de Angra que, logo na primeira semana, instituiu “um dia de porta aberta” para acolher todos os que tocassem à campainha, primeiro na ilha Terceira, em Angra e depois em São Miguel, mas sempre que se desloca a qualquer ilha reserva tempo para “ouvir e escutar” quem o procura.

“Caminhar com todos” é, de resto, o desafio proposto pela Diocese para o próximo biénio. Um rumo anunciado também na entrada: “Iremos conhecer-nos, se Deus quiser! Podeis contar comigo sempre `da melhor vontade´. Cuidemos uns dos outros, cuidai dos membros dos grupos de que fazeis parte, mas sempre e todos a olhar para o mundo à vossa volta. Nunca fechados! Fechados, morremos”.

“Eu gosto de conhecer pessoas, de tentar fixar nomes. Nove ilhas é sempre uma aventura” confessava no final deste ano aos dois jornalistas que o entrevistaram para a Lusa e Agência Ecclesia.

Neste primeiro ano fica “um novo estilo” de exercício do Episcopado, refere Piedade Lalanda. A diretora do Serviço Diocesano da Pastoral Social destaca “o sacerdócio deste bispo, quase ao jeito de pároco”, que cheira às ovelhas do seu rebanho e que gosta de estar no meio delas, mesmo que algumas “não apreciem o estilo e até resistam” como reconhece Renato Moura, membro do Conselho Pastoral Diocesano pela ilha das Flores.

“É notório o esforço para entender as diferentes realidades. A coragem para mudar de forma significativa mexendo o que há muito tempo estava instalado, dá sinais de que estão abertos novos desafios: o mais importante é perceber-se que se está a traçar um rumo porque não se chega a lado nenhum se não o fizermos. Por outro lado, a preocupação com a unidade, mesmo estando consciente das resistências do clero e dos leigos”.

Em julho e agosto surgiram as mudanças com a colocação do Clero e a escolha da nova equipa que o acompanha ao serviço da diocese. No Seminário, alterou o modelo formativo e a equipa formadora: alunos do propedêutico residem fora do Seminário; equipa formadora passa a contar com leigos.

Nomeou um novo Reitor, um novo Vigário Geral e criou um Vigário para o Clero e para a Formação. Mexeu no Santo Cristo e não houve nenhuma ouvidoria dos Açores que ficasse exatamente como estava.

“Trouxe-nos muita alegria e muita esperança, um sentimento de renovação muito grande, tendo feito mudanças consideráveis na organização da nossa igreja. Agora, sinto-o um pouco cansado, é preciso um ponto de equilíbrio porque não pode estar em todo o lado” refere João Carlos Leite, presidente do Movimento Romeiros de São Miguel- Associação.

Com a “desculpa para conhecer cada canto, os jovens, os crismas, as famílias, ver onde é que estão os párocos, falar com eles, ouvir as expectativas”, D. Armando Esteves Domingues reconhece estar numa diocese onde são conhecidas as rivalidades entre as ilhas. Será um bispo do continente a solução para a unidade?

“Só o tempo o dirá. (…) Há convenientes e há inconvenientes. Claro que construir a unidade entre esta gente toda, ser uma pessoa dos Açores ou não, é sempre muito secundário, porque eu tenho de construir laços com toda a gente: Com quem me é simpático, com quem concorda, com quem alinha nas minhas ideias, com quem as tem contrárias”, diz o bispo, para quem “o grande desafio da Igreja é precisamente isto, ser capaz de [a título de exemplo] conciliar Terceira e São Miguel, para dizer duas ilhas maravilhosas dos Açores, mas que, efetiva e historicamente, são um pouco concorrentes uma da outra”, reconhece na entrevista à Lusa e À Ecclesia.

O que para o 40º bispo de Angra é já uma certeza é que “todas as ilhas têm uma identidade própria, como depois o tem cada comunidade. Portanto, estas diversidades tornam-se riqueza. O segredo está em saber valorizar e potenciar tudo aquilo que cada um é, isto é, desenvolver os carismas que cada um tem, sejam padres, sejam leigos, vivam numa ilha ou vivam noutra”.

Chegado a uma diocese que estava sem bispo há ano e meio, o novo prelado reconhece as repercussões que esse tempo teve na vida da Igreja local.

No dia da entrada na diocese, foi confrontado com um mar de gente a acolhê-lo no percurso entre a Igreja Misericórdia e a Sé de Angra. No cortejo estiveram também os bispos da Igreja portuguesa, numa comunhão nunca antes vista.

Dando muita atenção aos ouvidores que coordenam localmente a atividade da Igreja nas ilhas açorianas — algumas ilhas com mais do que um, como a Terceira(2) e São Miguel (8), D. Armando Esteves Domingues tem sido uma voz preocupada com as questões sociais, nomeadamente a habitação- tema bem presente na mensagem da Quaresma-, na atenção aos pobres- pedindo responsabilização das comunidades pelos seus mais necessitados-, na inclusão de todos para “que ninguém fique para trás”- reafirmou-o na apresentação do Itinerário Pastoral, no dia 26 de novembro- e no cuidado da casa comum, que o levou a assinar com os jovens o Pacto da Montanha. Não deixou de olhar para a ação política, não a partidária “mas aquela de deve pugnar pelo bem comum”, sempre com a confiança de “ter descoberto nos agentes públicos, e mesmo nos agentes partidários, nos responsáveis, gente de um valor enorme”.

“A diaconia [o serviço aos outros], este serviço primário, tem de estar na preocupação da comunidade. O trabalho em rede ajuda muito”, defende o bispo Armando Esteves Domingues.

Nas 43 viagens que realizou durante o verão cabe a que efetuou à Califórnia, a Turlock, onde existe uma forte presença açoriana ainda de primeira geração: “Fiquei espantado. Estava nos Açores. A forma como viviam as festas, as procissões, os cortejos de animais, os carros feitos por eles, todos a guincharem, como era antigamente nos Açores” afirmava no final da viagem.

A diáspora açoriana é muito forte, o que fica expresso ao comparar os açorianos residentes no arquipélago, cerca de 250 mil, com o número de açorianos emigrantes ou descendentes — 1,5 milhões, particularmente nos Estados Unidos ou no Canadá.

O Observatório da Emigração apontava, em 2011, que, do total de 4,5 milhões de portugueses residentes no estrangeiro, cerca de 1,5 milhões eram emigrantes açorianos e seus descendentes.

Esta influência verifica-se na própria vida da Igreja Católica, com os açorianos a levaram para as terras de acolhimento as suas tradições religiosas. E por isso, já ficaram em carteira mais “três ou quatro convites. Os emigrantes açorianos ficam felicíssimos e todos tentam levar alguém dos Açores. E o bispo também é a mesma coisa. Vamos também como sinal desta unidade”.

Neste ano e no próximo, que tem como horizonte o Jubileu da Esperança, o Bispo deseja uma Igreja em caminho, onde todos possam ser considerados, escutados e corresponsabilizados. O Plano Pastoral, propriamente dito, ficará para os próximos três triénios, de olhos postos na celebração dos 500 anos da diocese insular.

D. Armando Esteves Domingues é o 40º bispo de Angra. Natural de Oleiros, no distrito de Castelo Branco, é o oitavo de 11 irmãos. Foi ordenado presbítero em janeiro de 1982 e bispo em dezembro de 2018, tendo servido como bispo auxiliar do Porto desde essa altura até ser nomeado bispo de Angra em novembro de 2022.