Gualter Furtado

O Natal é por excelência a festa dos Cristãos que celebra o nascimento de Jesus de Nazaré, com um profundo significado de aproximação entre as pessoas, do encontro, de convivência, de perdão, de partilha, da família, marcada pelo presépio, a árvore de Natal, a ceia de Natal, os presentes e até entre nós pelo “menino mija”. Ao Natal também está associada a música, a missa do galo, a alegria, e a Paz.

No entanto, e mais uma vez este Natal fica ensombrado por este mundo fora com conflitos de guerra que tem causado milhares de mortos, feridos, refugiados, com dramas profundos a afetar seres humanos, e na sua maioria inocentes. Nesta dura realidade como podemos ficar indiferentes a esta tragédia que nos entra todos os dias pela casa a dento através dos écrans da televisão, pela rádio, redes sociais e jornais? é impossível, pois só um ser insensível ou muito desinformado pode não ficar tocado por estas disputas, que não raras vezes assumem proporções de carnificina e num quadro de desrespeito absoluto pelos Direitos Humanos.

Não deixa de ser irónico que um dos mais sangrentos conflitos armados esteja presentemente a ocorrer na Palestina, um território profundamente ligado à origem do cristianismo, mesmo aceitando que ele tenha nascido na Judeia como defendem muitos historiadores e teólogos. Um conflito que se prolonga há décadas e que assumiu proporções sangrentas com o recente ataque cruel do Hamas em 7 de outubro em território israelita, deixando um rasto de terror e de mortos civis, incluindo vítimas inocentes raptadas. Como sempre a resposta de Israel não se fez esperar e com uma intensidade cujos efeitos ainda estão por descortinar e como acontece nestas situações provocando danos colaterais a que também não escapam os inocentes.

Que melhores presentes de Natal não poderiam ter estes povos, se o coração dos responsáveis políticos e militares, a geoestratégica, permitissem a Paz nestes territórios e a convivência pacífica e de cooperação nesta Região. É confrangedor assistir ao não entendimento entre os membros do Conselho de Segurança, mas também da própria Assembleia Geral das Nações Unidas a propósito deste conflito, mas também do da guerra provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia, e outros conflitos de grande intensidade que estão a acontecer por este mundo fora e designadamente na Ásia.

As guerras como consequência da ganância, conflitos religiosos e étnicos e a ameaça da crise climática estão a pôr em causa de uma forma rápida e dramática a própria sustentabilidade do Planeta Terra, sem que os seus principais protagonistas façam uma profunda reflexão sobre os seus comportamentos e como se o futuro fosse algo que não os preocupa, numa junção perfeita da ganância, com o egoísmo e do desprezo pelo futuro.

Com a globalização, as novas tecnologias, o poder de alcance bélico de alguns países, o que ficava longe, hoje está mesmo ao pé da porta e não podemos pensar que a desgraça dos outros por ficar geograficamente afastada, também não nos toca, porque isto é pura ilusão e a prová-lo tivemos o Covid 19 que se converteu aceleradamente em Pandemia por todo o mundo, bem como os efeitos acrescidos na subida dos preços das matérias primas, bens intermédios e finais e nas taxas de juro provocados pela invasão da Ucrânia pela Rússia com efeitos em todos os países. Hoje tudo se propaga a uma velocidade impressionante e principalmente o mal.

Sendo assim, a melhor prenda de Natal que podíamos ter, mesmo aqui nos Açores era a Paz no mundo, em que a cooperação substituísse os conflitos e que os Senhores da Guerra e da degradação do meio ambiente fossem tocados pela fé e pela razão da construção de um mundo melhor.

Poder-se-á dizer que isto é uma utopia, e que não passa de uma esperança, mas o mundo também se constrói com causas e perseverança, e certamente se nos demitirmos, então é que batemos mesmo no fundo. Haja esperança num mundo melhor, mas para tal não podemos cruzar os braços e esperar que as coisas aconteçam.

Cá por casa, que nesta Consoada o Pai Natal nos coloque no sapatinho uma prenda que também sirva para iluminar as nossas mentes e corações rumo à construção de uns Açores melhores, sem pobreza, com mais educação, menores dependências, incluindo o álcool e as drogas, menos abandono escolar precoce, erradicação da violência doméstica, igualdade de género em oportunidades e deveres, mais cooperação, partilha  e também mais sustentabilidade.