O historiador Rui Carita, especialista em património militar, defendeu hoje que a ilha Terceira, nos Açores, tem potencial para atrair turismo militar, pelo seu núcleo museológico e por ter “uma das maiores fortalezas do mundo ibérico”.

“A fortaleza é um monstro enorme, espantoso, e de impacto patrimonial mundial. É todo o mundo ibérico que está aqui em causa”, adiantou, em declarações aos jornalistas, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, referindo-se à Fortaleza de São João Baptista, construída na dinastia filipina.

O professor jubilado da Universidade da Madeira falava à margem da sessão de abertura do I Colóquio Internacional de Património e Turismo Militar, que junta em Angra do Heroísmo cerca de meia centena de investigadores de vários países da Europa, numa organização do TECHN&ART, Centro de Tecnologia, Restauro e Valorização das Artes, do Instituto Politécnico de Tomar, e do Museu de Angra do Heroísmo.

Segundo Rui Carita, para além das fortalezas, a cidade de Angra do Heroísmo tem um “núcleo museológico de excecional qualidade” sobre património militar, só precisa de criar “roteiros” e “interessar o público”.

O historiador defendeu que haverá um “novo nicho de turismo militar nos próximos anos”.

“A oportunidade hoje, por estranho que pareça, é a guerra na Ucrânia que abre um interesse sobre o património militar, sobre o que são estruturas militares, etc., que leva as pessoas hoje a uma nova viagem”, explicou.

Jorge Paulus Bruno, diretor do Museu de Angra do Heroísmo, que integra o Núcleo Museológico de História Militar Manuel Coelho Baptista de Lima, disse que ilha já começa a explorar este tipo de turismo, embora necessite de divulgá-lo mais.

“Nós já vamos recebendo pessoas, que chegam à ilha com o intuito de visitar o núcleo de história militar. Ainda são poucas”, revelou.

De quarta a domingo, o museu organiza visitas à Fortaleza de São João Baptista, em cinco línguas, com guias certificados, que têm “tido um número significativo” de participantes.

“Entendemos que é uma mais-valia para o conhecimento da região. Falar da fortaleza é falar da história da ilha, falar do seu património militar. É um primeiro passo para o desenvolvimento de uma linha de turismo no âmbito do turismo militar”, salientou o diretor do museu.

Entre o património militar do Museu de Angra do Heroísmo, Jorge Bruno destacou aquela que é “considerada a única bateria Schneider-Canet do tempo da I Guerra Mundial completa numa instituição museológica a nível mundial”.

“Temos reservas visitáveis, a pedido, que contêm uma quantidade enorme de peças militares, que são muitíssimo interessantes e muito valiosas. Algumas são peças únicas a nível nacional”, sublinhou.

O diretor do museu defendeu, por outro lado, a criação de um roteiro pelos fortes da ilha Terceira, ainda que muitos estejam “praticamente desaparecidos”.

“Valeria a pena fazer mesmo um circuito de autocarro. Não existe o forte, mas pode existe um múpi explicativo da função que ele exerceu da defesa de uma determinada baía”, propôs.

O diretor do TECHN&ART, Célio Gonçalo Marques, presidente da comissão organizadora do colóquio, considerou que o evento, que decorre até sábado, pode dar um contributo para impulsionar o turismo militar na Terceira.

“Estão aqui reunidos especialistas, não só nacionais, mas internacionais. Esta partilha de investigação, de conhecimento, obviamente que vai potenciar esse turismo militar e aquilo que de fantástico tem em Angra e na ilha Terceira”, frisou.

Para o presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, Álamo Meneses, a cidade já atingir um “patamar elevado” de visibilidade pelo seu património e “o número de turistas só não é maior, porque os transportes aéreos não os trazem”.

“Temos cada vez mais gente que visita Angra por razões que têm a ver com o património construído e é claro que no património construído avulta a Fortaleza de São João Baptista, mas também os outros fortes”, apontou.