Dezenas de mulheres iniciaram hoje uma caminhada a pé pela ilha Terceira, nos Açores, numa romaria em que procuram reflexão, paz interior e um reencontro com a fé, e que conta com cada vez mais participantes.

“Eu faço parte de vários movimentos da Igreja […], isto é totalmente diferente. É uma grande penitência, um grande sacrifício e a amizade que nos une. Pouco falamos umas com as outras, mas ao fim de dois dias, quando acaba, a gente sente um carinho especial por todas”, adiantou, em declarações à Lusa, Rosa Godinho, uma das responsáveis do grupo.

Há 10 anos, quando foi criado o grupo das Caminhantes de Nossa Senhora da Conceição, saíram à rua 15 mulheres, mas hoje já são cerca de seis dezenas.

As romarias quaresmais, uma tradição católica que se prevê que exista desde o século XVI, têm sobretudo expressão na ilha de São Miguel, onde terão tido origem.

Tradicionalmente, só os homens podiam participar, mas nos últimos anos começaram a surgir também alguns grupos de mulheres e ranchos em várias ilhas do arquipélago.

Ainda não eram 06:00 nos Açores (07:00 em Lisboa) e já o grupo se reunia à porta da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, onde inicia todos os anos a romaria.

Depois de uma pequena oração com o padre daquela igreja, saíram duas a duas, alinhadas por altura, com xailes e lenços aos ombros e terços nas mãos.

Aos primeiros raios de sol, ainda com a cidade de Angra do Heroísmo a dormir, o silêncio das ruas era quebrado pelas orações recitadas em uníssono.

Pela frente esperavam cerca de 44 quilómetros, metade da ilha feita a rezar ou a cantar, com paragens em todas as igrejas no percurso.

“Cada uma leva ali a sua vida. Todas temos uma razão para ir ali”, salientou Rosa Godinho.

Em cada igreja, há uma oração. Pedem pelos familiares, por quem as ajuda no percurso, pela população daquela freguesia ou por quem lhes pede que rezem por si.

“Há pessoas na rua que passam por nós e vemos que estão emocionadas. A gente também se emociona. Fazemos muitas orações pelas pessoas que nos pedem, acontece muitas vezes”, revelou a caminhante.

Rosa Godinho participa há nove anos na romaria. Começou numa altura em que buscava forças para enfrentar um casamento que chegava ao fim e continuou ano após ano.

Cada caminhante tem um motivo e uma história, mas quando uma se emociona todas partilham essa dor.

Joana Aguiar da Rosa participa há cinco anos com a mãe. Perdeu o irmão numa situação difícil e a romaria dá-lhes “alguma força para continuar a acreditar que existe algo”.

“Cada um vem com as suas intenções, às vezes só no pensamento. É uma fé grande que temos de ter para cá vir. Essencialmente os nossos motivos pessoais é que nos dão força para continuar e fazer este caminho”, frisou.

Sandra Azevedo perdeu o marido quando os filhos ainda eram pequenos. Foi a fé que a ajudou a superar as dificuldades.

“Eu acho que ao longo da nossa vida todos os dias perdemos um bocadinho a fé, com as coisas que nos vão acontecendo na vida, umas boas, outras más, mas vamos perdendo um bocadinho a fé. Eu venho aqui com o intuito de renovar a minha fé, principalmente depois de ter perdido o meu marido”, partilhou.

Tatiana Ourique tinha o xaile guardado na gaveta há quatro anos. A pandemia de covid-19 e o nascimento do filho impediram-na de sair mais cedo, mas este ano participou pela primeira vez.

Lembra-se de se emocionar com as imagens das romarias de São Miguel, quando as via pela televisão, e hoje orgulha-se de poder participar numa tradição que durante muitos anos esteve vedada às mulheres.

“Acredito que há aqui mulheres que não vão com regularidade à missa. É um percurso diferente, se calhar para fugir às rotinas. Os telemóveis vão estar guardados. É mesmo para uma reflexão, para um caminho interior que precisamos de fazer, numa pausa de dois dias. Se calhar devíamos fazer mais do que uma vez por ano. Obriga-nos a parar e a conhecermo-nos um pouco melhor”, sublinhou.

Maria Betânia encontra também nesta romaria um “tempo de paragem” para “fugir da corrida do dia-a-dia” e concentrar-se “no que é importante”.

Este ano, tem a companhia da filha Margarida, de 09 anos, que garantiu ter “muita energia” para chegar ao fim da viagem.

“Quando eu vinha às reuniões com a minha mãe, o assunto parecia interessante e eu perguntei se podia vir hoje”, contou.

Alinhada mesmo atrás da participante mais nova, Idalina Almeida mostra que os seus 72 anos não a impedem de integrar o grupo para “estar mais perto de Deus”.

“Apesar de ser a mais velha, até à data sou a que faço com mais facilidade”, sublinhou, assegurando que enquanto puder vai continuar a participar.

“Sinto uma paz interior. Vamos em reflexão. Rezamos, cantamos e vamos focadas na nossa fé”, acrescentou.

Para Ricardo Henriques, pároco da Igreja de Nossa Senhora da Conceição e um dos orientadores nas reflexões de preparação, a romaria simboliza a vida na terra, porque também ela é “uma peregrinação”.

“É uma necessidade de paragem para que cada uma possa fazer uma espécie de viagem interior, um tempo de purificação, de reflexão, em que a pessoa pensa sobre a sua identidade, a sua condição cristã, o seu lugar neste mundo”, descreveu.

Muitas das refeições nestes dois dias são oferecidas, umas como promessa, outras por quem quer apenas ajudar. Nené, a cozinheira cabo-verdiana mais conhecida da ilha Terceira, por exemplo, oferece sempre um almoço.

A noite é passada num pavilhão e pela manhã, recuperadas as energias, rumam à Igreja da Agualva, onde encerram a romaria com uma missa e começam a pensar na próxima.

“Todas têm a experiência de que depois da viagem valeu a pena, sempre”, garantiu Ricardo Henriques.

 

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