Talvez por ver futebol há mais de 3 décadas e por achar que o futebol tem muito a ensinar à política, gosto, como todos sabem, de fazer diversos paralelismos entre política e futebol.

Vai daí lembrei-me, por estes dias, do professor Manuel Sérgio, que podendo ser um ilustre desconhecido para muita gente, mas, para quem conhece, sabe que estamos a referir-nos a um brilhante académico da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa.

O Professor Manuel Sérgio, numa palestra dedicada ao fenómeno José Mourinho, disse o seguinte: “quem só percebe de futebol, nada percebe de futebol.” Esta frase surgiu para explicar as múltiplas valências e qualidades do treinadorJosé Mourinho, que havia sido aluno do Professor Manuel Sérgio e cuja ligação mantinham viva desde esse tempo.

A sábia máxima pode e deve ser adaptada a todas as áreas de atividade. A frase devia acompanhar, diariamente, quem se acha expert em política. Um líder político, tal como qualquer treinador, tem de ter conhecimentos muito para além do seu estrito campo de atuação.

Dominar as regras do jogo ou, na política, conhecer bem o Regimento da Assembleia Regional, pouco ou nada serve. Ter leitura de jogo ou apresentar umas propostas vagas, também de pouco adianta.

É preciso mais. Muito mais. Estamos a três semanas das eleições regionais. Os políticos, para além dos cartazes e de umas promessas, estão acantonados nos respetivos mundos. Não há rasgo ou ousadia.

Nem nas listas de deputados, nem nas intervenções. Às mesmas caras, ainda que uns venham do poder local, junta-se o registo de sempre. Umas visitas aqui e acolá. Alguma campanha de rua. A habitual troca de palavras e passa culpas. E uns comícios com sopas do espírito santo ou carne guisada. Aqui pelo meio temos um sistema parlamentar transformado num sistema presidencial.

Tudo isto é dar razão ao Professor Manuel Sérgio. Quem o faz acredita que isto é o modelo certo e que sabem o que estão a fazer. Este modelo tem como resposta, desde quase sempre, uma elevada abstenção. E que tal fazer-se algo diferente? Não peço que surjam por aí Mourinhos.

Mas podiam tentar qualquer coisa fora da caixa. Assim, como digo no título, fica mais difícil. Mais difícil, obviamente, para quem aspira ser ou voltar ao poder. Os olhos deviam estar postos no futuro e não permanentemente no retrovisor… O que mais vejo por aí é “vamos alterar; vamos recuperar; vamos assegurar a continuidade dos direitos, etc…”

Nada disto representa inovação, arrojo, coragem… E por falar em coragem, termino com outro ensinamento do Professor, Filósofo e Mestre Manuel Sérgio, que, confrontado com uma pergunta sobre as qualidades necessárias para se ser um grande treinador, respondeu o seguinte:

“Quem triunfa, no treinador, é o homem, não é o muito saber. Um indivíduo que saiba muito, mas que não seja corajoso, escusa de ir para a alta competição, porque já perdeu.” Será que isto também se aplica à Política?