Hernâni Bettencourt, jurista

A nossa Assembleia regional, a cada sessão parlamentar, tem sempre muito para contar e ainda bem para quem gosta de escrever sobre política e outras coisas conexas. Desta feita, registei as inúmeras referências à Estónia. Segundo percebi, esse país é uma espécie de referência social e económica para a Iniciativa Liberal. Ou pelo menos, para o jovem deputado que ocupou o lugar habitualmente preenchido por Nuno Barata. O Deputado José Luís Parreira, provavelmente traído pela inexperiência nestas lides, entusiasmou-se com uns dados estatísticos desse longínquo país e decidiu defender a replicação do modelo por lá implementado às nossas nove ilhas. Só esta gritante diferença devia aconselhar a qualquer imitação e, muito menos, a entusiasmos desmedidos. Eu, apesar de me encaixar no campo político da social democracia, confesso que simpatizo com a utopia do liberalismo. E também nutro simpatia pelo Deputado Nuno Barata e outros companheiros nacionais do seu partido. Quando os ouço consigo vislumbrar ali uma pontinha de razão. O Estado, de facto, devia incomodar menos os cidadãos. O Estado não devia ser tão burocrático. O Estado devia ter uma política fiscal muito adequada à realidade. O Estado devia, no fundo, alterar o seu modus operandi em múltiplas áreas. Mas isto não significa, sob pena de entrarmos numa anarquia ou mesmo numa selva, que o Estado deve ter uma atuação residual na sociedade ou mesmo desaparecer do mapa. E, muita das vezes, é essa a ideia que fica daquelas intervenções inflamadas sobre os méritos de tudo o que é privado. Foi, talvez, inspirado aí que o Deputado Parreira decidiu tecer loas à Estónia. À Estónia!!! Essa reconhecida nação a nível mundial em todos os itens mais importantes para os cidadãos! Está minha ironia transportou-me, de repente, para a exaltação em tempos idos feita pelo Bloco de Esquerda à Albânia. Provavelmente, o deputado Parreira não é desse tempo.

Mas convinha saber que essas colagens não têm grande futuro. O Bloco de Esquerda rapidamente, ou melhor, após os portugueses perceberem como se vivia na Albânia, abandonou tal referência de sociedade. A Estónia, ainda que se viva melhor por lá do que na Albânia, também será rapidamente abandonada pelo deputado Parreira. Os Açores, com as suas características muito específicas, não são passíveis de uma qualquer “estoinização”. Uma região arquipelágica, dispersa, que dista de Santa Maria ao Corvo aproximadamente 600 km, com acentuados problemas demográficos, com uma população envelhecida, com rendimentos baixos, com mais de metade dos nossos concidadãos a não pagarem IRS; com os problemas que todos sabemos na Saúde, com os dados que temos na Educação, etc… etc… É um puro devaneio parlamentar pré-férias a ideia de importação do alegado modelo estónio! E tudo isto me remeteu para uma conversa que ouvi há dias por aí: és liberal? Sim, mas com mesada dos meus pais!! Boas férias!!!