A companhia Cães do Mar assinala os 80 anos da instalação da base das Lajes na ilha Terceira, nos Açores, com uma peça de teatro, que conta a perspetiva de quem se viu forçado a sacrificar as suas terras.

“É uma comédia, mas tem um tom sério, porque, em última análise, a peça é sobre sacrifício, sobre o sacrifício das vidas humanas. Mas as pessoas sacrificaram também as suas casas e as suas terras”, conta, em declarações à Lusa, Peter Cann, escritor e diretor da peça, que se estreia no sábado, na ilha Terceira, e que será apresentada na base, em agosto.

Decorria a II Guerra Mundial, em outubro de 1943, quando os militares da Royal Air Force, do Reino Unido, desembarcaram na ilha Terceira, construindo uma pista de aviação, onde hoje está instalada a base das Lajes.

É o ponto de partida para uma peça que se inspirou em factos reais, com base num trabalho de pesquisa de um ano, com a consultoria do capitão Pedro Ventura, da Força Aérea Portuguesa, e na recolha de testemunhos de familiares de quem colaborou na construção da infraestrutura.

“Conta alguns dos factos. Por exemplo, como as pistas foram construídas em menos de 30 dias com placas de aço perfuradas, o que foi um feito incrível”, revela o autor.

“Sarrado Grande”, título da peça, remete, na pronúncia da Terceira, para os terrenos, onde se cultivava uma grande parte dos cereais da ilha, que foram ocupados pela pista.

Numa ilha pobre, a abundância dos ingleses trouxe melhores condições de vida a muitas famílias, mas com alguns sacrifícios.

“Apesar de terem casas novas, melhores, com água corrente, não tinham as terras, que eram meios para ganhar a vida. É um período muito interessante de observar e, em termos de conflito dramático, é muito rico”, explica Peter Cann.

A Cães do Mar apresenta um “espetáculo ao ar livre de larga escala”, com fantoches e uma banda de ‘swing’ ao vivo, que conta várias histórias interligadas, sem ignorar as questões políticas.

“Temos fantoches gigantes do Churchill e do Salazar. O jogo do Salazar era inteligente e complexo. Os aliados precisavam desesperadamente de uma base aqui, porque se os submarinos tivessem continuado a destruir as escoltas, a Alemanha teria ganhado a guerra”, descreve o escritor.

Uma das influências deixadas pelos ingleses, e mais tarde pelos americanos, foi a música, o que explica, por exemplo, que a Terceira tenha hoje um elevado número de grupos de jazz.

“Portugal vivia muito fechado culturalmente e politicamente. Ter gente de fora aqui trazia de tudo a nível tecnológico, a nível musical, a nível cultural… Foi muito importante. E ainda hoje se nota, porque numa terra tão pequena termos vários grupos de várias áreas artísticas a fazer tanta coisa diferente é bom”, salienta Antero Ávila, compositor e diretor musical da peça.

O músico terceirense toca tuba no quinteto Lava Brass, que integra professores e alunos do conservatório de Angra do Heroísmo e que transporta o público para a década de 1940 neste espetáculo, com temas originais e pequenos excertos de música da época.

Antero Ávila lamenta que os custos da insularidade dificultem a exibição da peça noutras ilhas do arquipélago e em Portugal continental, porque não tem dúvidas de que “é interessante independentemente do contexto local”.

“Estamos a fazer uma coisa aqui, que se fosse feita nos Estados Unidos, podíamos fazer durante 10 anos, sem parar. Aqui, para o ano já está visto e temos de fazer outra coisa”, aponta.

Com a participação do grupo de teatro amador Matilha, criado pela Cães do Mar, o espetáculo resulta de uma coprodução com a companhia Cem Palcos, de Viseu, que espera levá-lo, em 2024, ao continente, ainda que com pequenas adaptações, para que seja compreendido, na íntegra, pelo público.

“No texto fala de ‘gamas’ e eu e o Ricardo a ler aquilo dissemos: é uma gralha, isto são gomas. Depois percebemos que são coisas muito específicas daqui”, lembra Graeme Pulleyn, referindo-se à palavra usada nos Açores para pastilha elástica, que deriva do termo inglês “gum”.

Apesar destas particularidades, Graeme, um dos dois atores da Cem Palcos que faz parte do elenco, acredita que a peça tem potencial para percorrer o país.

“É um espetáculo que começa do local e vai para o universal. Toca na geopolítica de uma época, que ainda afeta muito concretamente a forma como o mundo hoje funciona e reflete as grandes linhas históricas”, defende.

Criada em 2016, a Cães do Mar, uma companhia profissional de teatro e dança sediada na ilha Terceira, tem inspirado as suas criações em histórias particulares dos Açores, como a batalha do navio inglês “Revenge”, contra a armada espanhola, ao largo das Flores, no século XVI.

Peter Cann garante que a Terceira e os Açores têm ainda “imensas histórias interessantes para contar” e a próxima pode voltar a estar relacionada com a base das Lajes.