O Festival Violas do Atlântico decorrerá em setembro em São Miguel, nos Açores, e receberá pela primeira vez o braguinha, um dos cordofones tradicionais madeirenses, unindo músicos açorianos e da Madeira, revelou hoje à Lusa a organização.

O evento, produzido pela Associação de Juventude Viola da Terra, é realizado anualmente desde 2011, em São Miguel, e inclui por convite da organização uma viola de arame de uma zona do país, para concertos em duo com a viola da terra, típica dos Açores.

Em declarações à agência Lusa, o presidente da Associação de Juventude Viola da Terra, Rafael Carvalho, disse que só na semana passada é que a organização obteve resposta da candidatura que apresentou aos apoios por parte da direção regional dos Assuntos Culturais (DRAC).

“A resposta só chegou na passada sexta-feira com um apoio de 500 euros, o que é manifestamente insuficiente para pagar passagens dos músicos e a estadia, o som e as luzes. Mas, o festival vai ser organizado”, disse Rafael Carvalho, músico açoriano que se tem dedicado ao ensino e à divulgação do instrumento musical.

Segundo explicou, a candidatura teve uma das pontuações mais elevadas por parte do júri, mas “a DRAC alega que a legislação é omissa sobre a percentagem de montantes a atribuir, tendo definido patamares de apoio que vão dos 10% aos 35% em relação ao apoio solicitado”.

Para Rafael Carvalho, a situação penaliza todos os agentes culturais dos Açores, já que são atribuídos apoios insuficientes que revelam “uma política de abandono do setor que tem vindo a ser denunciada por vários agentes culturais e partidos políticos”.

“É uma situação lamentável e que está a asfixiar um setor que já está ao abandono”, disse, lembrando que a viola da terra dos Açores quer ser Património Cultural e Imaterial da Humanidade.

Rafael Carvalho salientou que o festival é o segundo mais antigo do país ligado à viola de arame e tem contribuído para a divulgação do instrumento a nível regional, nacional e internacional.

A XIII edição do Festival Violas do Atlântico decorrerá em 09 e 10 de setembro, com os músicos Rafael Carvalho na viola da terra e Roberto Moritz no braguinha, para além de participações especiais que a organização anunciará em breve.

Rafael Carvalho, também responsável e formador da Escola de Violas da Fajã de Baixo, sublinhou ainda que será uma edição “bastante especial” da iniciativa que já recebeu todas as violas de arames portuguesas e ainda a viola caipira do Brasil.

Os músicos Rafael Carvalho e Roberto Moritz estarão em concerto no Cineteatro Lagoense, na cidade da Lagoa, em 09 de setembro, onde apresentarão os instrumentos com algumas interpretações a solo e tocarão peças em conjunto.

No dia seguinte irão deslocar-se à Ribeira Quente para uma tertúlia com músicos da freguesia.

O festival conta com a ajuda logística das autarquias da Lagoa e da Povoação e Junta de Freguesia da Ribeira Quente, tendo apoio do Governo dos Açores nos eventos da Temporada de Violas da Terra 2023.

A viola da terra, que teve origem no século XVIII, tem a caixa em forma de oito e tem 12 cordas: três ordens duplas (seis cordas mais agudas organizadas aos pares) e duas ordens triplas (outras seis cordas graves e organizadas em conjunto de três).

O instrumento é também conhecido como viola de arame ou viola de dois corações, sendo semelhante ao violão, mas de dimensões mais pequenas.

No passado, a viola da terra fazia parte do dote do noivo e o seu lugar na casa durante o dia era em cima de uma colcha axadrezada, como adorno do quarto do casal, assumindo, desde o povoamento do arquipélago, um lugar de destaque nos festejos, bailes, cantorias e serões.