Zuraida Soares: Um testemunho pessoal

A vida encarrega-se de nos fazer experimentar realidades que julgamos conhecer bem, teoricamente. Por razões pessoais que não vêm ao caso, convivi – durante um período de tempo significativo – com o nosso Sistema Regional de Saúde.

A primeira impressão a realçar é a excelência dos recursos humanos que nele trabalham, uma excelência feita de profissionalismo, dedicação, empatia, paciência, cuidado. Seja qual for a categoria profissional em que pense, em todos/as (re)conheci aquela centelha de humanismo que faz toda a diferença, quando, silenciosa e solitariamente, nos confrontamos com a mais profunda fragilidade, medo e sofrimento físico. Haverá excepções? Claro que sim! Mas estas servem, afinal, para confirmar a regra.

A segunda impressão é que esta avaliação não resulta de uma qualquer posição de suposto privilégio em que me encontraria, pelo facto da minha cara não ser, propriamente, desconhecida. Bem pelo contrário: em todos os espaços comuns que partilhei com outros/as doentes, verifiquei aquela velhinha máxima de “a cada um/a, segundo as suas necessidades”…e este facto não é um mero pormenor.

A terceira impressão é que a grande maioria destes/as profissionais estão cansados, muitas vezes exaustos e, sobretudo, desgastados, por se verem obrigados a disfarçar, diariamente, o sentimento de frustração que os assola, no permanente confronto com carências inexplicáveis. Atrevo-me, até, a adivinhar que o peso maior é a certeza de que tudo continuará na mesma – amanhã, depois e sempre -, apesar de todas as tentativas para que seja melhor.

A quarta impressão já não resulta só da evidente falta de médicos, enfermeiros, auxiliares e outros profissionais, desde a entrada até à saída do sistema. Não! As faltas e carências vão muito para além destas: não há pensos; não há botijas de água quente; não há batas, nem pijamas, em número suficiente para os/as doentes; faltam cobertores e almofadas; não há um pingo de azeite, durante dias seguidos, para temperar a comida dos/as doentes que não estão obrigados a dieta; algumas instalações de uso comum (como os duches) mais parecem dignas de um país terceiro-mundista; o sistema informático dos diferentes serviços, dia sim, dia sim, colapsa, para desespero de quem precisa dele para, exactamente, atender doentes; não há camas suficientes para os/as doentes que delas necessitam. E, a este propósito, assisti a um episódio que, por si só, confirma a minha primeira impressão: à minha frente, um médico especialista e duas enfermeiras, foram contactando todos os serviços de um hospital, suplicando pela disponibilização de uma cama para uma doente chegada das Flores e que, pela terceira vez, corria o risco de regressar à sua ilha sem ser submetida ao acto médico de que carecia, porque não existiam camas vagas! Ah! E também não posso deixar de referir o absoluto caos que, frequentemente, se vive no Bar dos/as doentes, onde a fila para atendimento dá várias voltas sobre si mesma, enquanto dois empregados quase fazem o pino para conseguirem atender toda a gente, num espaço de tempo minimamente decente!

Por isso, deixo uma pergunta: porque vai o Governo Regional injectar milhões de euros num (dois?!) hospitais privados, ao invés de o aplicar na melhoria do Sistema Regional de Saúde? É que se o dinheiro é nosso – e é! -, a prioridade deveria ser aplicá-lo naquilo que nos serve a todos/as, de forma universal e “tendencialmente” gratuita.

Não acham?

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