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A zoóloga norte-americana Bethany Joy poderia ter-se fixado em qualquer espaço do globo, mas após ‘tocar’ os Açores quatro vezes, a velejar, decidiu que tinha de “viver no paraíso”, promovendo hoje passeios com burros para turistas.

Natural do Missouri, Bethany Joy esteve 15 anos a navegar pelo globo a trabalhar em projetos de conservação animal e cruzou o Atlântico muitas vezes. Parou nos Açores em quatro ocasiões e “todas as vezes” gerava a “nota mental de que iria voltar e viver no paraíso”, no arquipélago, na ilha de São Miguel.

A intenção materializou-se depois do seu casamento com um italiano, tendo ambos fixado residência nos Açores, narra a zoóloga em declarações à Lusa, à sombra do arvoredo, com os seus animais, na Caloura (concelho de Lagoa), enquanto os burros se alimentam de ervas e captam as atenções dos curiosos que passam e tentam alguma interação, sobretudo crianças.

Tendo adquirido uma propriedade em Água D’Alto, com vista privilegiada sobre o ilhéu de Vila Franca do Campo – uma cratera vulcânica, classificada, onde é possível nadar – a norte-americana leva os turistas a conhecer localidades da ilha de São Miguel na companhia dos seus burros, sem que estes sejam montados.

Os animais podem ser vistos ainda pelas ruas da zona balnear e classificada da Caloura, na vila de Água de Pau, para deslumbramento dos visitantes, que também podem conhecer a exploração onde moram os burros, “alguns dos quais recuperados, depois de maltratados”.

A ideia de criar um “santuário para burros”, na sua propriedade, em Água D’Alto, concelho de Vila Franca do Campo, a “Donkeys and friends”, surgiu na sequência de uma amizade com um local, que hoje integra o projeto e cujo pai possuía um burro.

Um ano depois do início do projeto, que tem sete animais, a zoóloga destaca a “plena interação com os humanos, uma vez que os animais são muito dóceis”. Rejeita e condena as relações com os animais como ocorriam no passado: “Quem quiser montar os animais que os carregue primeiro e depois partilhe a experiência.”

Bethany Joy recorda que estes burros deram “grandes contributos” nas explorações agrícolas, carregando material e o resultado das culturas na ilha, altura em que eram montados pelos seus proprietários.

Agora, no seu projeto, são “dezenas os clientes por semana, tanto na Caloura como em Água D’Alto”, que além de passearem com os burros podem confraternizar com os animais na propriedade, tratando da sua higiene e alimentação, escovando-lhes o pelo ou dando-lhes banho.

Os seus clientes, que como perfil comum apenas têm a paixão pela natureza e pelos animais, são estrangeiros, portugueses de fora da região ou açorianos, de diferentes idades. Já houve desde uma criança de 05 anos a um idoso de 93 a interagir com os burros.

Os visitantes inscrevem-se nos passeios via ‘online’ (na plataforma Airbnb), havendo o cuidado de “conciliar o bem-estar animal e o número de pessoas que aderem à atividade”, com a limitação do número de circuitos diários.

Além dos passeios, há quem tenha optado por realizar piqueniques ou praticar ioga na presença dos animais na “Donkeys and friends”.

O projeto contempla também uma vertente social e de inclusão, promovendo a interação de pessoas portadoras de deficiência com os burros, que são apresentados extremamente limpos.

A zoóloga norte-americana está “focada em clientes que amem os animais e a natureza, numa perspetiva de interação e com base em práticas sustentáveis”, considerando que se fica “mais conectado quando se trata os animais por igual”.

Bethany Joy, formada pela James Cook University e que viveu também na Austrália, tem como ambição expandir-se, criando mais espaços na ilha de São Miguel, dispersos, com mais animais, integrando-se nas comunidades e criando postos de trabalho locais, num contributo para fixar populações.

Na exploração existem entre os seus burros duas “estrelas”, o Joaquim Horta, que já nasceu na propriedade, e o Eduardo, que é o animal mais indisciplinado e dócil do espaço.

O passeio com os burros apresenta-se como uma opção no âmbito de um turismo mais ativo em São Miguel, onde existem atividades como a observação de cetáceos, canoagem, desportos mais radicais, hipismo, trilhos ou passeios de barco.

Na ilha, no século XIX, por iniciativa de ingleses que se dedicavam ao denominado ciclo da laranja, eram promovidos passeios turísticos com burros a várias localidades, como as Furnas e as Sete Cidades.

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