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“Houve uma altura aqui na ilha em que era raro numa família não haver alguém que soubesse tocar piano. Intrigava-me, como a muita gente, como é que um pedaço de terra com 60 quilómetros quadrados, com poucos habitantes [pouco mais de quatro mil, segundo os resultados preliminares dos Censos de 2021], como é que era possível ter uma riqueza tão grande, em particular musical, e ainda mais em particular, ao nível do piano”, contou à Lusa Fábio Mendes.

A ligação com aquele instrumento vem desde cedo, mas “foi só em contexto de mestrado” que o pianista decidiu debruçar-se sobre o assunto.

Assim, a partir de uma listagem em que eram identificados cerca de 100 pianos relevantes, feita pelo padre Norberto Pacheco, autor de vários livros sobre a cultura graciosense, foi “batendo à porta dos proprietários”.

Esse levantamento permitiu identificar, “pelo menos, três vagas de entradas” deste instrumento na ilha, que plasmou no livro “O Piano na Graciosa: Práticas Musicais durante a I República”, lançado em 2017.

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A “primeira referência oficial, escrita, a pianos, aparece em 1845” e é precisamente em meados do século XIX que Fábio Mendes estima que terá acontecido a primeira vaga, a mais tímida delas todas.

“Vinha cá regularmente uma espécie de delegado do distrito de ilha de Angra [do Heroísmo], fazer levantamento, ver como estavam as coisas, que obras eram precisas. Acompanhava-se aqui a moda de Lisboa e outros centros urbanos, e entre ela também os pianos. Nessa primeira fase, eram sobretudo os latifundiários e pianos de mesa”, pormenoriza.

Estes “têm um mecanismo, à semelhança do piano de cauda, na horizontal, mas ocupam menos espaço”.

“Em São Jorge, ainda há alguns exemplares, também na Terceira e no Faial, mas aqui na ilha há bastantes. Um deles é uma verdadeira relíquia e, infelizmente, está em muito mau estado”, indicou.

Trata-se de “um piano de mesa inglês, que, pelas suas características, terá sido produzido antes de 1815”.

Para chegar até ele, “foi uma verdadeira gincana”.

“Está numas águas-furtadas de uma casa, de pernas para o ar, e muito, muito, estragado”, explicou.

É um “piano que vale pela sua antiguidade, mas não é tocável”, e, mesmo que restaurar seja possível, “é como pegar num carro, ficar com a carroçaria, e pôr lá um motor novo”.

Dessa primeira fase, há pianos de várias origens, denunciadas pela sua “aparência exterior”.

“É muito fácil identificar, por exemplo, pianos franceses. Como em tudo, são muito mais exuberantes – a madeira muito mais ornamentada”.

Existem na ilha “dois pianos franceses maravilhosos: um Pleyel, a marca preferida de Chopin, e um Gaveau”, que até mereceu as honras de capa do livro de Fábio.

“É lindíssimo. Tem os candelabros, onde se colocavam as velas, um bronze quase filigrana, com imagens de esfinges”, descreveu.

Se, por um lado, “os franceses usam e abusam da ornamentação, por outro lado, há os pianos alemães, que são muito mais austeros”.

Dos modelos americanos de finais do século XIX que se encontram na Graciosa, “já quase todos têm o piano moderno, já são pianos com 88 teclas”, um padrão que foi estabelecido por volta de 1880. Antes, tinham até 66 teclas.

A predileção dos compositores do século XIX pelo piano estimulou “os construtores a produzirem sempre um instrumento que correspondesse às expectativas e exigências técnicas que colocavam nas suas obras”.

Com o final do século, vem a segunda vaga de entrada de pianos na Graciosa. “Aí, assistimos a uma espécie de aburguesamento do piano”, observou o investigador.

“O piano deixa de ser propriedade exclusiva dessa elite latifundiária, que eram membros da pequena aristocracia rural e passa a ser adquirido por membros da pequena burguesia: comerciantes, artesãos”.

Essa segunda vaga foi financiada pelo dinheiro do vinho.

“A ilha tinha muito, muito vinho. Parece anedota, mas não é – havia muitos anos em que a ilha tinha mais vinho do que água. É uma ilha muito seca, não tem ribeiras, não tem nascentes, por outro lado, tinha muito vinho, desde os séculos XVI e XVII”.

Com a chegada da filoxera e de outras pragas que atacavam a vinha, a ilha “perdeu muita mão-de-obra, quase escrava”, que emigrou, essencialmente, para o Brasil.

Nessa altura, regista-se uma “diversificação económica”, com o desenvolvimento das indústrias baleeira e da telha.

Essa nova posição de destaque da classe burguesa permitiu-lhes comprar pianos, agora já verticais, muitos deles em segunda mão.

“A terceira vaga acontece no primeiro quartel do século XX, até 1935, mais ou menos, e são pianos que entram pela mão dos emigrantes que regressam do Brasil e dos Estados Unidos”, com “pequenas fortunas”, assumindo “um papel cultural muito importante”.

A Graciosa ganha, então, “uma série de atividades culturais, desde teatro a bandas filarmónicas e tunas, passando pela criação dos primeiros clubes de futebol”.

Os loucos anos ’20 trouxeram também um “reportório super moderno para a época, principalmente música para dança de salão”, conta o pianista.

Com o passar dos anos e o abandono crescente da ilha, a vida cultural da Graciosa foi esvanecendo.

Fábio Mendes é “otimista”, porque acha que “as coisas vão mudar” mas considera que, face ao presente, a ilha “não é não é nem uma sombra daquilo que já foi”.

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