A peça “O Senhor Ibrahim e as Flores do Corão” chega ao Teatro Micaelense

TM Ibrahim ©Marta Carreiras
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Miguel Seabra, do Teatro Meridional, apresenta, este sábado, a 119.ª encenação de “O Senhor Ibrahim e as Flores do Corão”, no Teatro Micaelense, em São Miguel, Açores, “como se fosse a primeira vez”.

A peça de Eric-Emmanuel Schmitt, um dos dramaturgos de língua francesa mais lidos e representados do mundo, parte do encontro de duas pessoas, que estão em etapas diferentes da vida: o Senhor Ibrahim, merceeiro árabe, e o jovem Moisés, de onze anos, filho de um judeu.

O encontro proporcionará ao jovem Moisés “uma viagem iniciática sobre diversos temas, que passam por ser as relações humanas, relações com a religião, a relação com a sexualidade, o valor da vida e da morte”, explica Miguel Seabra, ator, encenador e diretor artístico da companhia, referindo que “esta história tem uma paleta emocional e um gráfico de vivências que é muito completo e abrange muita coisa”.

Há uma ideia central na história levada à cena pelo Teatro Meridional, um apelo a “aceitarmos que temos perceções de vida, entendimentos e credos diferentes. É uma mensagem de bem, de harmonia, mas não é de uma harmonia mole ou morna, é de uma harmonia inteligente, que lê nas entrelinhas quem é que eu sou, porque é que sou como sou e o que faço com o que sou”, explica.

O espetáculo do Teatro Meridional é encenado e interpretado por Miguel Seabra, a quem se junta, em palco, o músico Rui Rebelo, num espaço cénico despojado, desenhado pelo ator e encenador e por Marta Carreiras.

Para o ator esta opção de encenação foi imediata: “Rapidamente, identifiquei-me com esta história e prontifiquei-me a contá-la a uma só voz e um músico, porque, para além do Teatro Meridional ter sempre, como tónica dos seus trabalhos, música ao vivo ou gravada, eu estava a ler, a ouvir sons”.

O resultado, em palco, é “uma longa viagem, que passa por muitos momentos belos, não só através do texto, como através da música do Rui Rebelo, que proporciona neste espaço cénico, que é muito simples, uma cenografia sonora. A simplicidade da história assim exigia.”

Como encenador, tem interesse em “trabalhar o campo emocional do público ao nível de provocar a imaginação, através de uma interpretação sugestiva”.

“Queria ir buscar a simplicidade absoluta, porque é um ator, sentado numa cadeira, a contar uma história e a criar paisagens imaginárias, e a sugerir esse desafio e convite ao público de fazer esta viagem comigo e com o Rui”, afirmou.

A repetição da peça em mais de uma centena de interpretações traz o desafio próprio da representação, aqui facilitado pela construção narrativa: “Os degraus nesta história, nesta viagem, são tão sequentes, tão lógicos, e tão surpreendentes, também, que eu e o Rui temos apenas que ter a capacidade, sempre, de sermos humildes o necessário para continuarmos com a coragem de contar, vivenciar e partilhar esta história com o público”, afirma o ator.

Só assim o resultado é “sempre inteiro, sempre a 100%, sempre como se fosse a última vez, a fazer de cada espetáculo o espetáculo zero”, sublinha.

Em 1995, quase foi a última vez, quando, antes de entrar em palco, teve um AVC hemorrágico, recorda Miguel Seabra, e por isso trata cada espetáculo como um novo.

“Por isso é que o teatro, quando se sobe a palco, tem que ser como se fosse a primeira vez. Temos que usar a experiência para fortalecer a comunicação, credibilizar o espetáculo, mas o teatro é um ato de efemeridade e, portanto, essa responsabilidade de poder oferecer ao público uma coisa única, que tem que ser muito especial, é um catalisador para convocar, permanentemente, uma vontade intensa de dar.”

Chega, no sábado, ao palco do Teatro Micaelense, depois de já ter pisado, por 118 vezes, outros palcos por todo o país, e até fora, mas vem “como se fosse a primeira”, garante o ator.