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“As coisas gradualmente estão a melhorar. Talvez pelo facto de haver menos casos na ilha e de não haver casos todos os dias, as pessoas estão a começar a ter mais alguma confiança. Os próprios miúdos também se incentivam uns aos outros”, avançou, em declarações à Lusa, a presidente do clube da ilha Terceira, nos Açores, Nélia Nunes.

Em meados de novembro, a AJFB cancelou os treinos de todos os escalões, depois de terem sido detetados quatro casos de infeção pelo novo coronavírus na equipa de seniores masculinos, que joga no campeonato nacional.

“Cancelámos os treinos, porque os motoristas eram comuns a todas as equipas. Quando íamos recomeçar, começou a haver mais casos”, adiantou Nélia Nunes.

Só em janeiro, com a redução do número de casos de infeção na ilha Terceira, se reuniram condições para retomar os treinos, mas nem todos os atletas regressaram aos pavilhões.

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O escalão de juvenis masculinos, com atletas entre os 14 e os 16 anos, foi um dos mais afetados, mas a marcação do primeiro jogo impulsionou o regresso da maioria aos treinos.

“Eles gostam de treinar, mas do que toda a gente gosta é de competir e jogar com outras pessoas, no caso deles, com atletas mais velhos de outro clube. A competição é aquilo que os move”, admitiu o treinador Tiago Sineiro.

No primeiro treino, após uma pausa de quase dois meses, apareceram “três, quatro” atletas, mas nas vésperas do jogo o número aumentou para 11.

“Já é muito melhor. Mesmo assim, ainda há três ou quatro que não vieram”, contou o treinador.

Professora primária e mãe de um dos atletas, Carla Almeida admite ter “algum receio” de deixar o filho treinar, devido à pandemia, mas o bem estar físico e a necessidade de socialização têm pesado mais na decisão.

“Apesar de ter este receio, como mãe, vejo que não os podemos prender demasiado. Durante as aulas eles já têm de ter cuidados e estão sempre a ser chamados à atenção, também temos de lhes dar um bocadinho de liberdade”, apontou.

Outros pais aguardam por tempos mais “estáveis”, mas Carla entende que esses dias poderão ainda demorar a chegar e o confinamento traz impactos no desenvolvimento dos jovens, e não só como atletas.

“Apesar de eu ter muito quintal, os meus filhos tornaram-se muito sedentários e muito dependentes do computador”, revelou.

Diogo Pacheco tem 15 anos e ambiciona chegar à primeira divisão de voleibol, mas reconhece que a pausa forçada nos treinos trouxe alguma desmotivação.

“A gente já não volta com a mesma energia que tinha. Antes de irmos para a pausa, tínhamos um ritmo avançado e com a pausa vamos um bocadinho abaixo”, adiantou.

Só falha os treinos quando os testes exigem maior concentração na escola, mas o pai não o deixa sair de casa sem relembrar os cuidados necessários em tempo de pandemia.

“Tenho avisado os meus amigos para usarem sempre a máscara, porque alguns na minha escola não usam e eu tento não me aproximar para não infetar alguém da minha equipa”, disse.

Rodrigo Machado, com 16 anos, também quer ser jogador profissional e chegar à seleção. Não largou a bola de voleibol, nem em casa, no confinamento, mas confessa que “precisa de treinar” e de “estar com os amigos”.

“A gente no final do treino gosta de fazer jogos, seis contra seis, e, às vezes, não pode por falta de atletas”, lamentou.

A AJFB tem cerca de 80 jogadores, entre os sete e os 18 anos, em seis escalões de formação (masculinos e femininos).

O número é o mais baixo dos últimos 15 anos, mas a quebra está mais relacionada com o encerramento do pavilhão do clube, a necessitar de obras, do que com a pandemia.

“Este pavilhão não tem condições de treino. É muito húmido e eles escorregam. Tivemos de passar de quatro treinos semanais para três e isso desmotiva-os”, justificou o diretor desportivo Rui Gaspar.

Para já foram retomados apenas os jogos com outros clubes da ilha Terceira. Em março, deveria arrancar a segunda fase da competição, com clubes de outras ilhas, mas a evolução da pandemia é uma incógnita.

O diretor desportivo admite que se a pandemia obrigar a pausas mais prolongadas o clube pode vir a ter dificuldades em fidelizar as camadas mais jovens.

“Se melhorar, os atletas gradualmente vão voltando. Não é fácil ganhar a confiança, sobretudo dos pais”, frisou.

Por mais curtas que sejam, as pausas atrasam sempre o desenvolvimento a nível desportivo e exigem uma recuperação da condição física.

“Já chegámos a ter treino adequado para eles desenvolverem coordenação, agilidade, velocidade e orientação espacial, porque eles estão de tal modo agarrados às tecnologias que tivemos que desenvolver treinos específicos para colmatar isso. Se eles estiverem parados três, quatro meses ainda é pior”, explicou Rui Gaspar.

A maioria dos jogadores da equipa de seniores masculinos da Fonte do Bastardo não foi formada no clube, mas há quem alcance o escalão e quem regresse ao clube para treinar as camadas mais jovens.

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