PS e PSD condenados a entenderem-se a bem dos Açores e dos Açorianos

Política e afins OPINIÃO | Emanuel Furtado

No passado domingo, 25 de outubro, ocorreram as eleições legislativas nos Açores e é preciso, primeiramente, dar os parabéns aos açorianos, que foram votar, pela forma civilizadíssima como o fizeram. Ao contrário do que muitos pensam, neste escrutínio, elegem-se os deputados regionais, pelos 10 círculos eleitorais (1 por cada uma das ilhas e um círculo de compensação), em número de 57.

Nos primeiros 20 anos da autonomia, o PSD governou a região sempre com maioria absoluta. Em 1996, aconteceu uma reviravolta política e o PS ganhou as eleições (nesse ano, sem maioria); nos atos eleitorais seguintes, e durante 20 anos, voltou a ser vencedor.

Nestas eleições de 2020, aconteceu o que muitos não estavam à espera e, pior, não anteciparam: o PS ganha as eleições, sem maioria absoluta dos deputados eleitos, tendo perdido 5 lugares na Assembleia. Ainda assim, venceu em 7 das 9 ilhas, em 12 dos 19 concelhos e em 101 das 156 freguesias.

Por outro lado, o PSD não ganhou as eleições. Teve menos votos, menos mandatos e só venceu em 1 das 9 ilhas, em 5 dos 19 concelhos e em 47 das 156 freguesias.

De 2012 ao presente, o PS tem vivenciado uma erosão de votos (52.793 em 2012; 43.266 em 2016 e 40.701 em 2020). Quanto ao PSD, a lógica de obtenção de votos tem sido oscilante (35.550 em 2012; 28.790 e 35.091 em 2020).

E, deste modo, o PS elege 25 deputados, o PSD elege 21, o CDS-PP elege 3, o BE elege 2. O PPM, sendo um caso muito específico das ilhas ocidentais, elege 2 deputados. Além disso, e fruto de uma grande pulverização de votos nos chamados novos partidos pequenos, situação que não acontecido até então, são eleitos 2 deputados pelo Chega, 1 pelo PAN e 1 pela IL. No mais, a falta de 70 votos condena o PCP ao desaparecimento parlamentar, pelo menos nesta legislatura.

Chegados aqui, o que quiseram dizer os açorianos aos partidos políticos? Na minha opinião, os açorianos assumiram que pretendem que o Partido Socialista forme governo, mas não deve governar sozinho.

Perante esta distribuição de mandatos, tanto PS como PSD estão “metidos numa camisa-de-onze-varas”, tal é a complexidade de formar um governo estável para lidar com a crise económica e social que virá em 2021.

Os cenários são múltiplos. Desde PS+CDS+PAN ou IL. Com franqueza não estou a ver, tendo em conta os protagonistas, CDS e IL juntos. Nem CDS e BE juntos, mas por razões ideológicas. Do mesmo modo, não estou a ver o PSD deixar-se levar pelas “irracionalidades” do Chega, apesar de, nas suas hostes, haver muitos que salivam por uma “revanche” pelo que se passou em 2015 no “rectângulo”. Podem sempre dedicar-se às leituras de Pavlov.

O que não pode acontecer: se o PS não conseguir estabilidade governativa, o PSD não poderá ser governo se não garantir, também, essa dita estabilidade.

Todos sabemos que os dois grandes obreiros da autonomia foram o PS e o PSD, pelo que, para estes dois partidos, existem linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas!

Deste modo, e tendo em conta a crise que, com grande probabilidade, ocorrerá em 2021 e, possivelmente, se prolongará para 2022, só nos resta uma saída: o PS e o PSD entenderem-se e formarem uma plataforma de estabilidade governativa. Estou certo que tanto Vasco Cordeiro como José Manuel Bolieiro sabem disto e saberão encontrar a melhor solução.

A bem dos Açores e dos Açorianos.

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