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A produção de leite em Portugal continua sob enorme pressão, face aos elevados custos dos fatores de produção (eletricidade, gasóleo, adubos e rações) e a uma previsível baixa na produção de forragem, nomeadamente milho silagem, devido à seca e onda de calor, que poderá ser em alguns casos 50% face aoano passado.

Esperava-se que a abertura do mercado de cereais da Ucrânia baixasse os preços das rações, mas talvez por causa da seca em toda a Europa, Estados Unidos, Canadá e China, as produções serão inferiores e as várias matérias-primas usadas nas rações mantém-se com preços elevados. A seca na Europa, nomeadamente em França, está a causar redução na produção do leite que costumava vir para Espanha a preço de saldo.

No extremo oposto, segundo os últimos dados divulgados pela Comissão Europeia, os produtores de leite portugueses, que pagam os fatores de produção ao mesmo nível dos restantes colegas europeus, receberam em junho um preço médio de 38,2 cêntimos por kg de leite produzido. Foi, uma vez mais, o pior preço da Europa,mas foi também a maior diferença de sempre (11,2 cêntimos) para o preço médio comunitário, 2,2 cêntimos abaixo da Hungria, o país que ficou em penúltimo lugar na lista. Em julho registou-se em Portugal um aumento de 2 cêntimos, mas o preço médio da Europa também terá subido para 50.3 cêntimos e o preço do leite “spot”, no mercado livre entre indústrias, chegou a 64 cêntimos/kg.

No início de agosto, foi comunicado à generalidade dos produtores um aumento de 3 cêntimos para setembro, o que levará o preço médio em Portugal para 43 cêntimos (40 nos Açores e 45 no continente). Mais recentemente, foi comunicado aos produtores que fornecem a marca Pingo Doce uma atualização de 8 cêntimos por kg, o que lhes permitirá receber um valor superior a 50 cêntimos por kg. A APROLEP desafia desde já todos os restantes compradores a subir de forma imediata o preço do leite ao produtor para atingir um valor médio de 50 cêntimos/kg de leite em Portugal.

A atualização do preço do leite em Portugal, nos últimos anos, veio sempre tarde, abaixo dos custos de produção, abaixo do mercado europeu e sempre em reação ao aumento do preço de outros compradores ou à procura de compradores espanhóis. Os resultados são o desânimo dos produtores, o encerramento de vacarias todas as semanas, o aumento do número de animais para abatepor falta de alimento ou de dinheiro para os comprar e a venda de leite diretamente dos produtores portugueses para compradores espanhóis, à medida que terminam os contratos anteriores.

O preço do leite tem de deixar de ser arma de arremesso na guerra pela quota de mercado entre os vários supermercados e as indústrias. Esta guerra que esmaga os produtores está a colocar em causa o autoaprovisionamento lácteo e a soberania alimentar de Portugal. Numa altura de crise não devemos deixar que um alimento essencial e completo como o leite falte nas prateleiras ou seja substituído por leite importado a preços incomportáveis, tal como acontece neste momento no Brasil onde os consumidores estão a pagar o leite mais caro do que a gasolina.

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