Opinião: Rui Teixeira | Um dia, todos terão férias a sério!

Estamos na altura do ano que, tradicionalmente, é escolhida para as férias, essenciais para recuperar as forças anímica e física. Infelizmente, milhares de Açorianos não as terão. Os motivos são vários, mas a causa principal é só uma: porque os seus rendimentos são demasiado baixos.

Claro que há quem não tire férias por opção ou porque, simplesmente, não lhes é possível, mas estava-me a referir aos que, apesar de precisarem, não podem ir duas semanas para um hotel, ou para um parque de campismo, dentro da sua Ilha, noutra Ilha dos Açores ou, até, para fora da Região.

Não tiram férias aqueles cujos salários acabam muito antes das contas que têm de pagar.

Não tiram férias aqueles que têm de fazer uns biscates, para poderem suportar algumas despesas que vão surgindo e que não conseguiriam pagar apenas com o seu salário.

Não tiram férias aqueles que têm de arranjar a casa. Poderia dizer que é escolha, mas prefiro questionar: porque não arranjaram a casa aos fins de semana? Ou ao fim do dia? A maioria será porque teve de fazer horas extraordinárias, para completar o magro salário.

O repouso é importante, fundamental, para a produtividade no trabalho, ao contrário daquilo que tantas vezes nos tentam vender, na televisão, os comentadores especializados em tudo e que nos ensinaram que estão cá para pensar por nós e nos explicar como funciona a vida. Trabalhadores esgotados, fisicamente ou mentalmente, não têm o mesmo rendimento. Ou seja, o repouso também ajuda a economia, apesar de haver cabeças que acham normal e positivo o trabalho até à exaustão…

O descanso é um direito humano fundamental. Foi uma das maiores conquistas dos trabalhadores. Implicou, desde o século XIX, longas lutas sindicais, nomeadamente greves, por vezes colocando as vidas destes trabalhadores em risco. É por isso que acho inaceitável que, nos Açores do século XXI, se ache normal apostar no turismo e, ao mesmo tempo, haver Açorianos que não podem ser turistas. A começar pelos próprios trabalhadores da indústria do turismo, de tão baixos são os seus salários, que mal dão para as despesas normais, quanto mais para tirar umas férias a sério!

Mas, como este modelo económico e social está, rapidamente, a tornar-se insustentável, esta realidade não será eterna. A exploração de seres humanos e a destruição acelerada do planeta está construída para enriquecer uma mão cheia de indivíduos, aqueles que acumularam tanto quanto metade da população mundial.

Inevitavelmente, teremos de construir um novo sistema económico que assuma como essencial a justa distribuição da riqueza. Isto não é um sonho, nem uma utopia. Utopia é pensar que é possível eternizar um modelo irracional apenas para assegurar o poder a uma reduzidíssima classe de privilegiados. Até lá, vamos usar os dias de férias para descansar, em casa ou fora dela. E podemos aproveitar para pensar se queremos mesmo continuar a aceitar, como sendo normal, que existam, no século XXI, tantas famílias que, por causa dos baixos rendimentos, não podem tirar umas férias a sério.

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