Opinião: Rui Teixeira | Qualificações que ganham, qualificações que perdem (2.ª parte)

Na primeira parte deste artigo, abordei a promiscuidade entre o poder político e o poder económico, a propósito da indemnização de meio milhão de euros da TAP. Estamos longe de este ser um caso isolado no mundo empresarial, seja ele da gestão pública ou privada. Chegados a 2023, há novas e maiores razões para tirar essa conclusão…

O novo ministro, João Galamba, tem um longo historial. Entre outras, conta-se o favorecimento de grupos privados na exploração de lítio. Ou a aposta na produção de hidrogénio, falsamente apelidado de combustível verde. Nesse processo, fechou-se uma refinaria nacional para apostar, com despesas volumosas e sem qualquer credibilidade científica ou técnica, na dispendiosa produção de hidrogénio.

E, com o encerramento de refinarias nacionais, com a desculpa do ambiente, alguém ficou a ganhar. Não foi nem o ambiente, nem os Portugueses. Quem ganhou foram as empresas privadas a quem temos de comprar as matérias-primas e os combustíveis que antes tínhamos capacidade de produzir. Poluímos mais, porque temos de os transportar do estrangeiro. Em troca, aumentámos as despesas e o desemprego.

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Falando de combustíveis, as grandes empresas foram aumentando os preços, quando o barril de petróleo estava a baixar. Por seu lado, em 2023, as concessionárias das portagens vão receber, do orçamento do estado – portanto, dos nossos impostos –, mais 140 milhões de euros, a somar aos 1,4 mil milhões que já recebem anualmente. Pagámos e pagamos todos nós estes lucros extraordinários, enquanto o PS e a direita fingem não os ver. Inclusive os liberais, tão adeptos do livre mercado mas tão silenciosos nestes casos.

Como se sabe, nos Açores, não é diferente. Por exemplo, o governo regional bateu todos os recordes nas nomeações, para manter satisfeitas clientelas, egos e interesses particulares. A extrema direita, que noutras situações pareceria indignada, tem estado silenciosa, como convém, para não pôr em perigo a sua posição privilegiada.

Podia juntar muitos outros exemplos. Cada um dos que me leem conhecerá outros, igualmente escandalosos. A conclusão é evidente. Neste sistema económico, servido pelo poder político, há um grupo de qualificações que fica sempre a perder: as que resultam do trabalho. Aliás, esta semana, foi notícia que os salários de 2023 valerão menos do que há 9 anos, em pleno período da Troika. Por seu lado, 4 empresas, apenas 4 empresas, lucraram 2,7 mil milhões de euros em 2022. São 270€ por cada português. Tudo isto foi denunciado pelo PCP, perante o silêncio do governo, do PS e da direita, mostrando bem de que lado estão, ou seja, do favorecimento dos negócios privados.

Mas não tem de ser assim. Não será sempre assim. Porque esta realidade é insustentável. Mais tarde ou mais cedo, terá de se valorizar, de forma justa e digna, o trabalho e as qualificações. Por isso, o meu desejo para 2023 é que arranjemos as forças para exigir essa mudança, radical e urgente!

Feliz Ano Novo!

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