Opinião: Rui Teixeira | Qualificações que ganham, qualificações que perdem (1.ª parte)

Passado o Natal, espero que as festas tenham permitido aquecer um pouco o espírito de todos, ganhando forças para entrar em 2023 e enfrentar os desafios que se adivinham.

Foi notícia, recentemente, um pagamento escandaloso na TAP. Para comparar o valor recebido, basta dizer que corresponde a 900€ mensais durante 40 anos de trabalho. O governo que aceita como normal a lei que permite esta situação é o mesmo que recusou a proposta do PCP de reposição da indemnização por despedimento, para os valores anteriores à Troika. E fê-lo votando ao lado da direita e da extrema-direita, como é costume nestes casos.

Este caso está longe de ser único no mundo empresarial. Mesmo assim, lá chamou a atenção da direita, que anda sempre distraída nestes casos. De facto, é pena é que não exista a mesma atenção nas distribuições escandalosas de lucros que são postos em paraísos fiscais, onde pagam muito menos impostos que qualquer trabalhador ou pequeno empresário. Se isto não é uma corrupção típica do sistema, não sei o que será! Milhares de milhões de euros a fugir todos os anos seria coisa para chamar a atenção… A única conclusão possível é que a extrema direita que grita contra a corrupção, afinal, até concorda com ela, quando vem de um grande empresário…

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Isto acontece num ano de recordes dos lucros, à boleia de uma guerra que serve de desculpa para uma inflação especulativa. Por isso, seria bom que tivessem sido aprovadas as propostas do PCP de impor preços máximos para os bens essenciais, de proteger a habitação de família e de taxar os lucros extraordinários. Mais uma vez, opôs-se uma velha Troika: PS, direita e extrema-direita.

O argumento usado para os elevados salários e compensações aos quadros de topo das grandes empresas é que é preciso atrair os melhores. É curioso. O mesmo argumento nunca é usado a favor dos trabalhadores: garantir salários decentes para atrair os melhores. E estamos a falar das gerações mais qualificadas e formadas de sempre, mas para os quais a norma é o salário mínimo ou pouco mais. Serralheiros, agricultores, trabalhadores dos espetáculos, pescadores, enfermeiros, mecânicos, e tantos outros, têm, hoje, qualificações tão elevadas que será difícil que qualquer gestor os pudesse substituir. Aliás, os melhores gestores que conheço são os pais e mães que recebem o salário mínimo e conseguem sobreviver até ao final do mês.

É esta lógica política que tem levado ao empobrecimento progressivo. O salário mínimo aumenta, mas nunca o suficiente para compensar a perda de poder de  compra da última década. Os outros salários mantém-se praticamente inalterados, aproximando-os da pobreza ou reduzindo a sua qualidade de vida. E aqueles que acham normal o pagamento escandaloso na TAP ou a fuga de lucros para o estrangeiro vivem bem com este empobrecimento generalizado.

No lado oposto, a CGTP e os seus Sindicatos exigiram aumentos de 100€ para todos os trabalhadores. Seriam apenas 3€ por dia e não compensam o muito que já se perdeu, nem o crescimento dos lucros que resultou do aumento da produtividade. Por isso, prevejo que, em 2023, o aumento dos salários voltará a ser um assunto fundamental.

Mas, por agora, faça-se uma pausa para festejar a entrada no Ano Novo…

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