Opinião: Rui Teixeira | Pesadelo da 24 de Julho, episódio 5 – 1.ª parte

O título que escolhi cola-se ao Pesadelo em Elm Street e às suas sequelas. É, obviamente, exagerado, mas traduz um pouco o sentimento nas Escolas do país. Os problemas da Educação agravam-se e os Alunos sem aulas no início do ano aproximam-se dos 100 mil. Desde a famigerada Maria de Lurdes Rodrigues, ministra do governo do PS de José Sócrates, já tivemos mais 4 ministros da Educação. A Escola Pública, tal como no Serviço Público de Saúde, é como uma casa que tem um pequeno buraco no telhado: ou se repara o estrago, ou é garantido que o pequeno problema se fará grande.

Todos e cada um dos ministros deixaram a Escola Pública num estado pior do que a encontraram. Mesmo o anterior, Tiago Brandão Rodrigues, que começou por resolver alguns problemas, acabou por os agravar, sobretudo graças à instabilidade profissional, ao envelhecimento da classe e à desvalorização da carreira. O atual ministro, João Costa, e o atual governo da República, já demonstraram não ter vontade para encontrar soluções.

Não, a vida de Professor, não é fácil. E não é por causa da profissão em si, que já é exigente. Os problemas nascem na política educativa, tanto dos governos do PS, como dos da direita.

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Desde andar com a casa às costas todos os anos, não ver os filhos durante a semana, horários de trabalho incompletos com salários que não pagam as despesas com casa, transportes e alimentação. Ou ter de decorar, todos os anos, os nomes de 200 Alunos e apreender e adaptar-se às suas caraterísticas. Ou ver o seu trabalho não ser contado na carreira que foi brutalmente descaraterizada. Ou ter de esperar mais de 20 até ter um emprego estável, mas mesmo assim sem local fixo.

Pensemos um pouco neste cenário: um Aluno olha para os seus Professores. Vê-os a trabalhar com 60 anos, com 8 turmas de 28 Alunos, mais de 200 Alunos. Os currículos sempre a mudar. Os horários de trabalho ocupam noites e fins de semana. Vê-os que, mesmo cansados, procuram no futuro daquelas Crianças dentro da sala as forças para as aulas dessa semana. Esse cansaço vem das aulas, das pausas que faltaram, da imaginação e competências que convoca a cada minuto para responder a 28 Alunos, cada um com os seus problemas. Será que vai haver muitos Alunos que pensarão “esta é a profissão para mim?” É evidente que não. Aliás, há 15 anos, formavam-se 4 vezes mais Professores.

Esta semana, ouvimos o primeiro ministro falar de mais 100 milhões para a Educação, sem explicar como chegou a esse número. Também não disse que ficarão por resolver todos os problemas que eu antes referi, porque as propostas apresentadas pelo governo não lhes dão resposta. A OCDE defende que o orçamento da Educação deve corresponder a 6% do orçamento do estado. Isso, sim, permitiria as soluções urgentes e necessárias. Ora, o nosso investimento em Educação fica-se e continuará a ficar por pouco mais de metade desses 6%.

Estamos longe dos tempos que o discurso do PS era o da paixão pela Educação. Foi amor que queimou depressa. Ou de que o investimento na Educação combate a ignorância. Hoje, fala-se da despesa, fingindo não ver a falta de condições das Escolas. Curiosamente, o primeiro ministro não falou do facto de ter queimado 4 vezes mais dinheiro de uma só vez no poço sem fundo do Novo Banco. Nem dos 3 mil milhões de euros de lucros extraordinários das grandes empresas em 2023, sem que houvesse qualquer medida que travasse essa especulação ou imposto sobre esses lucros injustificados. Esses lucros são retirados diretamente dos nossos salários e pensões. Se fossem trabalhadores ou pequenos empresários, lá haveria os impostos do costume.

Alguns que me leem poderão pensar que nada disto tem a ver com os Açores. Mas tem. A face mais visível deste problema é a falta de Professores que já se sente e que cresce de ano para ano. Mas isso ficará para a segunda parte deste artigo.

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