Rui Teixeira | CDU
Pub

Hoje é greve dos trabalhadores da Função Pública. Aderi a ela, porque entendi ser a única forma de afirmar o meu descontentamento – com a falta de condições de trabalho, o crescente desgaste, um horário de trabalho extenso ou a brutal redução do poder de compra. Em 10 anos, os salários da Função pública perderam mais de 10% do seu poder de compra.

É certo que estas razões não são exclusivas da Função Pública. No entanto, esta não é uma ação de luta isolada: a CGTP tem marcada uma manifestação nacional para 20 de novembro pelas mesmas razões, acrescentando-se as 35h semanais para os trabalhadores do privado.

Estudos científicos demonstraram já que um horário de trabalho superior a 30h semanais conduz à degradação da saúde. Por outro lado, hoje produzimos muito mais em 1h do que produzíamos há 20 anos, em 2h, ao passo que o desgaste e a complexidade das tarefas e funções são também muito mais elevados (seja qual for a profissão).

Pub

Portanto, o caminho da civilização será o da redução do horário de trabalho. Não será fácil fazê-lo, porque afronta os lucros das grandes empresas, mas será uma conquista da humanidade, possibilitada pelos avanços da ciência e da tecnologia. Relembro que há 100 anos era normal um horário de trabalho de 10h diárias, 6 dias por semana, e parecia uma miragem um horário de 40h ou 35h semanais. Portanto, aquilo que hoje parece uma impossibilidade será o que amanhã transformaremos em realidade. Cá estarão os sindicatos – em particular, os da CGTP-In – para fazer este caminho, com a força, a confiança e a alegria que lhes são reconhecidas.

Na Região, é visível o desânimo perante os salários baixíssimos, estando generalizado o salário mínimo. Recebe tanto quem tem 20 anos de casa, como quem acabou de começar. É tão valorizadoo desleixo e a irresponsabilidade como o empenho e a dedicação.

Felizmente que a esmagadora maioria dos trabalhadores tem brio no seu trabalho, conscientes da importância das funções que desempenha. Recolha do lixo, saúde, educação, segurança e tantos outros serviços, cada um é desempenhado por trabalhadores que dão todos os dias o melhor do seu empenho. Essa postura choca com a desvalorização e os desrespeitos que dificultam o trabalho e a vida de quem pretende ser um bom profissional. Por maior que seja o brio, o trabalho corre sempre melhor quando se sente o reconhecimento, se recebe um salário justo e se têm condições de trabalho ou tempo para a vida pessoal.

Como me confessou, há uns anos, uma colega, a propósito da sua decisão de aderir a outra greve: concordava com todos os motivos, mas tinha um, muito pessoal. Um dos seus filhos faria anos nessa semana, e estaria tão ocupada com trabalho que, se não fosse a greve, não teria possibilidade de lhe fazer uma festa de anos.

A verdade é que a generalidade de nós foi sendo conduzida para eliminar progressivamente a vida privada, como única solução para dar resposta a profissões cada vez mais exigentes. Portanto, em última análise, estes são tempos em que também lutamos pelo direito a sermos… gente, com vidas próprias. Haverá motivo mais forte ou importante?

Pub