Opinião: Rui Teixeira | Ódios à mostra, amores escondidos – 2.ª parte

Na semana passada, abordei algumas das muitas contradições, do PS e da direita, a propósito das discordâncias públicas raramente coincidirem com as opções de voto, quando estão longe dos holofotes mediáticos. Foi o que aconteceu na proposta para o orçamento do estado para 2023.

E de que falo eu? Na habitação, o PCP propôs proteger a habitação das famílias, limitando penhoras e despejos, travando o aumento das prestações ao banco através da redução dos lucros milionários dos bancos e impondo um spread máximo da Caixa Geral de Depósitos, de 0,25%. Quem esteve contra? O PS e toda a direita, PSD, IL e Chega.

No preço dos bens alimentares, o PCP propôs que se definisse um preço máximo num cabaz de bens essenciais, nas grandes superfícies, pondo travão à especulação e aos lucros extraordinários destas grandes empresas. Quem esteve contra? PS, PSD, IL e Chega.

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Nos impostos sobre os rendimentos das grandes empresas, o PCP propôs que estes fossem sempre taxados como salários e pensões, em vez de lhes aplicar taxas mais baixas. Quem esteve contra? PS, PSD e IL, com a abstenção do Chega.

Ainda nos impostos sobre os lucros das grandes empresas e dos grupos económicos, o PCP propôs uma taxa sobre os lucros extraordinários e outra sobre o dinheiro que estas desviam para offshores, para fugir aos impostos. É por estas e por outras razões que as grandes empresas não pagam nem metade dos impostos que deviam pagar. Quem esteve contra? PS, PSD, IL e Chega.

Para os Açores, o PCP apresentou 12 propostas, em questões urgentes, para que o Estado cumpra os seus deveres para com a Região. Foram todas chumbadas pelo PS e, nas que implicam despesa pública, juntou-se a direita, com a abstenção. É o caso da contratação de 100 agentes da PSP para os Açores, da remodelação e construção de esquadras da PSP no Pico e de um plano de revitalização da ilha de São Jorge, onde se verificou a abstenção do PSD e da IL. Ou da construção da nova prisão em São Miguel, que teve a abstenção do PSD.

A estas propostas do PCP, juntaram-se muitas outras, para aumento de salários e pensões, para valorizar a Educação e a Escola Pública ou para salvar o Serviço Nacional de Saúde. Em todas se verificou que os ódios se tornam em amores na hora de PS e direita votarem. Mas não se pense que esta coligação negativa é contra natura. Se há coisa que o PS já demonstrou é que se encosta, rapidamente, à direita. Salários, pensões, condições de trabalho, saúde e educação são paixões que se queimam rapidamente, entre o discurso e o voto.

E esta é a maior lição dos últimos 7 anos: o PS assumiu algumas políticas de esquerda apenas porque foi obrigado, em particular pelos partidos que compõe a CDU: o PCP e Os Verdes. Sobretudo entre 2016 e 2019, conquistaram-se feriados, salários, manuais escolares gratuitos, entre outras coisas, porque o PS a isso foi obrigado. Aliás, isso mesmo foi reconhecido por António Costa, este ano. O resto, é história: em 2019, com as mãos mais livres, o PS encostou-se, progressivamente, à direita. Em 2022, com maioria absoluta, essa proximidade é cada vez mais visível. Quem fica a perder são sempre os Açorianos, em particular os mais vulneráveis. Da parte do PCP, as soluções continuarão a aparecer. Haja força na Assembleia da República e, também, na Assembleia Regional, para as fazer aprovar!

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