Opinião: Rui Teixeira | O insignificante

Hoje há greve da Função Pública. Havendo vários motivos para a greve, o principal é os salários. O problema dos salários baixos e da perda de poder de compra não é só destes trabalhadores, infelizmente. Como se sabe, é um mal geral do país e, em particular, dos Açores. Não foi resolvido durante os governos regionais do PS e só isso basta para que não se possa dizer que foram socialistas ou sequer de esquerda. E é um problema agravado pelo atual governo, como estes dois anos já mostraram.

Os trabalhadores da Função Pública não têm qualquer aumento desde 2009. São 13 anos a perder poder de compra: os seus salários valem hoje menos 20% do que em 2010. A inflação verificada entre 2010 e 2021 corresponde a mais do que um salário e só a de 2022 corresponde a outro. Ou seja, nestes 13 anos perderam mais de dois salários e este cenário é ainda pior nos bens de primeira necessidade: alimentos e energia. Neste momento, já há muitas famílias em que os pais não comem para que os filhos tenham comida. Com as prestações da casa a subir, milhares de famílias estão desesperadas.

E perante este cenário, o que impôs o governo? Sim, impôs, quando a lei o obriga a negociar. Impôs a manutenção do empobrecimento destes trabalhadores. É o mesmo governo que diz não haver dinheiro para aumentar salários mas que já queimou milhares de milhões de euros de dinheiros públicos em bancos privados falidos. Ou que transfere milhões para os lucros das empresas privadas de saúde. Ou que em 2022 recompensou as grandes empresas que pagam o salário mínimo, ou seja, recompensou os baixos salários.

Faço aqui uma pausa para recordar duas coisas. A primeira é que qualquer governo deve ser exemplo para a sociedade em geral, incluindo para as empresas privadas, pelo que estas, olhando para os… vou dizer salários de miséria, para não ser mal educado… pagos pelo estado assumem que podem manter baixos os salários que pagam. A segunda é que as negociações do governo servem de referência a essas empresas, ou seja, o aumento que o governo negociar torna-se um padrão nas negociações no setor privado.

Portanto, aqui chegados, importa ver quem são os trabalhadores da Função Pública. Para o governo da República e para o governo da Região, podemos concluir que são insignificantes, porque acham que não merecem um salário digno. E quem são esses insignificantes? Eles limpam hospitais e escolas, apoiam famílias, dão aulas, recolhem lixo, varrem as ruas, fazem turnos de 12h nas urgências dos hospitais, arriscam a vida para que a nossa esteja segura, arranjam estradas e jardins, recebem as mercadorias nos portos, mantém serviços públicos a funcionar. E fazem tudo isso mesmo com enorme falta de pessoal e de meios, ou seja, trabalhando a dobrar. São estes insignificantes, junto com milhões de outros do setor privado, que mantém o país e a região a funcionar: escolas, hospitais, laboratórios, centros de saúde, universidades, esquadras, segurança social, etc.

Na pandemia, foram aplaudidos à janela várias vezes. Mas ninguém janta aplausos, nem se pagam medicamentos e hipotecas bancárias com elogios. E, por isso, estes insignificantes resolveram ser a sua hora de recusar um aumento insignificante. Resolveram afirmar que não é aceitável trabalhar e ser-se pobre ao mesmo tempo. Recusam que o seu trabalho perca valor 13 anos seguidos. E é por tudo isso que, hoje, os trabalhadores da Função Pública, esses insignificantes, estão de greve. Para dizer que um governo que se recusa a resolver os problemas do país se torna insignificante. Da minha parte, já me juntei a eles.

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