Opinião: Rui Teixeira | O Brasil na encruzilhada

É bem verdade que todos os países nos devem ser iguais na consideração e no respeito. Mas a nossa ligação muito particular ao Brasil guarda-lhe um lugar muito especial, que levanta as emoções!

Os acontecimentos desde as eleições que deram a vitória ao campo democrático – sim, ao campo democrático, porque, no essencial, é disso que se trata, da defesa da democracia – são, sem dúvida, preocupantes.

É possível discordar, muito, de Lula e da política do PT. Mas há muito que foi demonstrado que a prisão de Lula foi política, e não judicial. Basta olhar para a ausência de provas. Ou para um processo judicial que falhou nas normas legais mais básicas do estado brasileiro e do estado de direito. Ou para o facto de o juiz que o condenou, Sérgio Moro, ter sido ministro da justiça de Bolsonaro, demonstrando o seu interesse pessoal no afastamento de Lula. Não, a prisão de Lula não resultou de qualquer crime. Foi por motivos políticos, movida por um poder económico e por um sistema judicial corrupto.

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A polarização das opiniões é extrema. A extrema direita cresceu e, com ela, o ódio que a carateriza. Esse ódio foi espalhado durante 4 anos de caos bolsonarista. E não se limitou ao Lula. Não, esse ódio irracional foi espalhado e manifesta-se contra todas as diferenças, sejam políticas, de opinião, de cor de pele, de origem social, de género ou de identidade sexual. Com a agravante da venda e posse de armas ter disparado, nesses quatro anos.

São graves os dois meses de acampamentos que visam desestabilizar e anular o resultado das eleições. A ser verdade, também é grave o apoio de militares e polícias aos invasores, que roubaram e destruíram propriedade pública, com a perda irreparável de algumas obras de arte.

A violência é um método da extrema direita fascista, bastante usado na América Latina, para derrubar governos democraticamente eleitos. O governo federal agiu depressa. Para já, parece ter conseguido manter a normalidade democrática e institucional, na medida do possível. Veremos os próximos acontecimentos.

Para que se perceba a irracionalidade dos milhares de pessoas que provocaram a invasão, tratam-se dos mesmos que negaram as quase 700 mil mortes por COVID-19 no Brasil. Parte deles são movidos por crenças que há muito deviam ter desaparecido, como a de que a Terra é plana. Aquilo que chamam do perigo de uma ditadura comunista resume-se a tentar matar a fome e dar emprego digno a todos os brasileiros. Ou seja, aos mínimos de uma sociedade do século XXI.

E, porque é esclarecedor, recordo as posições da Iniciativa Liberal e do CHEGA. Os liberais recusam-se a tomar posição, apostados em fingir igual distância entre Bolsonaro e Lula. Como se fosse possível ser-se neutro, quando está em risco a democracia, quando se espalha a violência e o caos. E o CHEGA continua o seu apoio a Bolsonaro, quando são evidentes os seus ataques à democracia, a sua política de empobrecimento, de ataque ao ambiente, de promoção da violência. Chega a afirmar que estes atos prejudicam a direita mundial, quando, na verdade, são atentados à democracia, essa sim prejudicada.

Tudo isto mostra bem a verdadeira cara desta velha extrema direita, que tentou disfarçar-se em novas roupas. Eles não dizem as verdades inconvenientes, manipulam e distorcem a realidade. O seu programa político resume-se à lei da selva e à promoção do enriquecimento daqueles que já dominam a economia.

E, por tudo isto, conclui-se que, no Brasil, a vitória da democracia dependerá de este governo conseguir devolver empregos dignos e comida ao prato de todos.

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