Opinião: Rui Teixeira | Mentiras absolutas – 2.ª parte

Na semana passada, abordei algumas das falsidades usadas pela direita, como aquela de que tínhamos de empobrecer para salvar a economia. Esta mentira foi desmentida depois de 2015, quando o aumento de rendimentos resultou em crescimento económico.

Em maioria relativa, estando obrigados ao diálogo e à negociação, esta má prática dos governos é reduzida – sobretudo devido à fiscalização da Assembleia da República. Mas não é eliminada e o PS, nos dois governos minoritários anteriores, foi tentando passar como sendo suas as medidas propostas por outros. Mas não foi assim. Inclusive, várias propostas da CDU tiveram a oposição ou resistência do governo do PS. Falo do fim dos cortes nos salários e nas pensões, do aumento do salário mínimo, do descongelamento das carreiras, do aumento extraordinário das pensões, entre outros.

Esta mentira foi ficando e o PS, apoiado numa máquina de propaganda tão bem montada como a do PSD/CDS, foi passando a sua mensagem: as medidas que nunca defendera afinal tinham sido suas. Do lado da CDU, durante 6 anos, foi-se ouvindo o aviso: o PS não mudou, o que mudou foi a correlação de forças na Assembleia da República. Recordo o triste caso da recuperação do tempo de serviço dos professores. O PS chegou a fazer chantagem, publicamente, à qual o PSD cedeu vergonhosamente. Não satisfeito, ainda recorreu a argumentos falsos, afirmando que ou havia dinheiro para as obras do IP3, ou para a carreira docente. 3 anos depois, nem se viram obras, nem se viu a carreira docente reposta.

Mais recentemente, a primeira proposta de orçamento do estado para 2022 foi vendida como sendo o orçamento mais à esquerda de sempre. Na campanha eleitoral, o PS foi pedindo uma maioria absoluta, assegurando o diálogo e a negociação. Afirmou também que era urgente aumentar salários e pensões. Mas esse discurso esgotou-se pouco depois das eleições. Diálogo, ninguém o viu. E com esse tal orçamento que dizem ser o mais à esquerda de sempre já temos perdas enormes nos salários, cortes reais nas pensões, aumento do custo de vida, prémios às grandes empresas que pagam o salário mínimo, a duplicação dos lucros das 25 maiores empresas nacionais e uma redução no IRC, abrangendo de forma cega as pequenas e as grandes empresas, as que pagam impostos cá e as que colocam os lucros escandalosos nos paraísos fiscais.

Quando se procuram explicações para a abstenção, seria bom olhar para a desilusão e o afastamento que estas mentiras vão causando nos eleitores. É que elas acabam por ser um perigoso ataque à própria democracia. Não se podem usar desculpas esfarrapadas, como a da sustentabilidade da Segurança Social, quando se recusam as soluções que lhe garantiria a sustentabilidade. Não se pode dizer que estamos todos no mesmo barco, quando há 25 grandes empresas a duplicar os lucros, enquanto continuam a fugir aos impostos, ao mesmo tempo que trabalhadores, pensionistas e pequenos empresários empobrecem.

Já agora, outra mentira que vai sendo lançada com frequência é que os partidos são todos iguais – e, por isso, não é preciso procurar quem seja diferente. E com essa mentira vai-se escondendo que há quem seja todos os dias coerente com o que afirma e com o que faz. Mas isso já é assunto para outro artigo…

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