Opinião: Rui Teixeira | Mentiras absolutas – 1.ª parte

Há várias formas de mentir, mas todas conduzem a um ponto comum: contar uma história que foge da realidade. Entre outras, pode passar pela omissão ou deturpação de factos importantes, ou por apresentar uma opinião ou uma intenção que não se tem. Por serem mais subtis, estas são as mais usadas pelas maiorias absolutas para deturpar a realidade.

Estávamos em 2011 e no governo da República estava o PSD/CDS, Passos Coelho e Paulo Portas. Era aquele governo de direita que ia salvar o país. Tinha sido eleito prometendo não baixar salários nem pensões, defender a saúde, devolver autoridade aos professores. Ia resolver os problemas estruturais do país, reduzir o défice e a dívida, levantar a economia.

Não foi preciso esperar muito… Usando as desculpas do costume, seguiram-se vários cortes nos salários e nas pensões, congelamentos das carreiras, ataques à Saúde com o favorecimento escandaloso dos grupos privados que vivem da doença, encerramento de escolas públicas para financiar as privadas com dinheiro do estado, deixando a qualidade do ensino e da saúde como um parente pobre. Aos portugueses disseram que não fossem piegas, que podiam emigrar. E foram anos duros, de muita emigração, muitos viram-se obrigados a vender a sua casa para sobreviver, de muito desemprego e de aumento brutal da pobreza. Mas não foi para todos assim. As grandes empresas continuaram a sua vida normal, acumulando lucros. Mas esse facto relevante foi sempre omitido pelo governo.

A mentira que se tornou mais habitual era que se tratava de sacrifícios necessários para salvar o país, enquanto todos íamos vendo o país a afundar. O resultado das eleições de 2015 permitiu travar aquela política de empobrecimento. Uma política que alguns agora querem reavivar, tentando esquecer os sacrifícios inúteis que foram pedidos. Mas, dizia eu, chegámos às eleições de 2015 e o governo do PSD/CDS tentava esconder a sua intenção de tornar permanentes os cortes nos salários e nas pensões. O resultado das eleições é conhecido: inexistência de maiorias absolutas, num cenário em que o resultado da CDU poderia ser determinante para as soluções que se demonstraram possíveis e essenciais. Isto quando, uns dias antes, muitos diziam que tais soluções eram impossíveis, inclusive o PS. Foi Jerónimo de Sousa o único a afirmar, na noite das eleições, que “o PS só não forma governo se não quiser.”

Nas negociações com o PS, a CDU impôs soluções que o PS antes recusara, por várias vezes, mas depois, mentindo, fez passar como sendo da sua autoria. Soluções que o PS nunca pusera num programa eleitoral, mas que foi obrigado a aceitar: fim dos cortes dos salários e das pensões, aumento do salário mínimo, descongelamento das carreiras, reforço da Saúde e da Educação, aumentos extraordinários das pensões mais baixas, entre outras.

E, assim, caiu um dos conjuntos de mentiras mais usadas para justificar uma política injustificável: que os sacrifícios eram necessários e inevitáveis, que não havia outras soluções, que era preciso empobrecer para salvar a economia. Afinal, provou-se que a economia melhora quando se aumentam os salários, as pensões e o poder de compra.

Mas as mentiras nunca desapareceram. Apenas se reduziram e moderaram, ligeiramente. De há um ano para cá regressaram em força. E já estão a fazer os seus estragos, nos salários e nas pensões. No poder de compra de quem põe o país a funcionar. Tudo pela mão de um novo governo de maioria absoluta, desta vez, do PS.

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