Rui Teixeira | CDU
Pub

Uma nota prévia: não sou religioso. O que não me impede de respeitar cada religião, nem de reconhecer os seus contributos para a Humanidade. Identifico-me, por exemplo, com a mensagem de Paz e respeito pelo Outro, recuso a sua utilização para subjugar outros seres humanos. Consequentemente, não aceito as perseguições pelas quais passaram e passam milhões de seres humanos, pelas suas convicções religiosas, políticas ou outras.

Refugiados na sua terra, uma família há 2021 anos procurava a paz que o Império Romano lhe roubava, perseguindo e ameaçando a vida. Tal como eles, milhares de outros não viviam em paz na terra que era sua, fruto da ganância desse Império.

Muito tempo se passou, mas a realidade não mudou muito. Mais refugiados, menos paz, mais muros, menos segurança, mais ganância. Muito, muito mais ganância. Nunca, em qualquer período da História, houve tanta acumulação de riqueza. Seria de esperar que a ganância fosse finita e que a acumulação de mais riqueza do que aquela que se pode gastar em 100 anos levasse a parar, para repensar o sentido da vida. Mas não é assim, e parece que há cerca de 1% da humanidade que, quanto mais tem, mais quer ter, num ciclo infindável. Vem daí a justificação para a multiplicação da guerra, da miséria, das perseguições, em todo o planeta.

Pub

Quem emigra, procura a vida melhor que não encontra na sua terra. Portugal, como país de emigrantes que é, sabe-o muito bem. Quem é refugiado, foge da perseguição e da guerra, que outros produziram para satisfazer a sua sede infindável de lucro. Milhões de crianças, mulheres e homens fogem ou fugiram do Iraque, Líbia, Síria, Palestina, Iémen, entre outros. Fazem-no neste novo milénio, caraterizado pelo desenvolvimento do conhecimento, da tecnologia, da ciência e da capacidade de produção que ultrapassa largamente as necessidades de todos os seres humanos. No entanto, a Organização Internacional das Migrações estima que existam hoje 280 milhões de migrantes. 28 vezes mais que toda a população portuguesa. Mais que toda a população da Península Ibérica. Portanto, a conclusão possível é que, naquilo que é essencial para mostrar um avanço na Humanidade, este novo milénio é velho, muito velho.

Se José, Maria e Jesus fugissem nos dias de hoje, teriam sido apanhados e sido mortos. Na sua terra, há hoje muros apertados e vigiados por exércitos, para que outro povo não possa viver em paz nem possa construir o seu estado. Israel ignora as resoluções da ONU sobre o direito à construção do estado da Palestina e às suas fronteiras. Israel, um dos países mais poderosos do mundo – economicamente e militarmente, nomeadamente com armas nucleares – afoga diariamente o direito de perto de 5 milhões de pessoas que não têm sequer um exército para se defenderem. É o país que mais ignora as resoluções da ONU, a par de outro, seu amigo, os EUA.

Este massacre constante visa as crianças em primeiro lugar, pela cínica razão de que são elas o futuro daquele povo e o objetivo desta postura é, simplesmente, eliminar qualquer possibilidade de futuro. Portanto, as crianças são o alvo preferencial. E Jesus, Maria e José teriam sido apanhados num dos muitos pontos de controlo.

Este é um problema que nada tem que ver com religião. Nem tem nada que ver com a Humanidade. Muito pelo contrário, quando são usadas como argumento é apenas para cumprir a vontade de homens cuja ganância é, como disse, infinita. Tão infinita como a sua crueldade.

E aqui emerge a maior contradição deste novo velho tempo que vivemos: temos todas as condições para construir uma Paz verdadeira, para satisfazer plenamente as necessidades de todos os seres humanos, numa perspetiva de desenvolvimento sustentável. Mas temos também um Muro nesse caminho. Não um muro físico, mas o mais velho muro: o construído com a sede de poder, com a ganância, com o cinismo e a hipocrisia de quem afirma que sempre foi assim e sempre será, que é preciso haver quem manda e quem obedeça.

Como há cerca de 2000 anos, é preciso expulsar os vendilhões do templo. Até o fazermos, até tomarmos nas nossas mãos o Direito Humano à felicidade, até assumirmos que a felicidade de cada um tem de significar a felicidade de todos, haverá sempre mais migrantes em fuga. No imediato, é urgente parar as guerras e agressões que se vão multiplicando por esse planeta fora, em particular em África e na América do Sul e, simultaneamente, receber quem foge à guerra porque apenas pretende viver em paz. É que este não é um problema apenas da Palestina, do Equador, da Colômbia, da Líbia, de Moçambique, de… tantos sítios. Esse é um problema da Humanidade. Esse é um problema que tem de ser de cada um de nós. Temos de ter presente aquela figura frágil de criança que, afogada, deu à costa numa praia do Mediterrâneo. E dizer: nem mais uma!

Pub