Opinião: Rui Teixeira | Guerras, Setúbal e histórias mal contadas

Para evitar mal entendidos, deixo claro que discordo das ações da Rússia na Ucrânia. Tal como condeno os crimes de guerra de Israel, dos Estados Unidos, da França, da Alemanha, do Reino Unido, da Arábia Saudita, do Quatar e de tantos outros países. Nestes casos, as guerras foram bem mais trágicas e com muito mais vitimas do que a da Ucrânia, apesar de o ruído mediático ser praticamente nulo. Mas isso deve-se à história ser feita pelos vencedores.

Seria simplista afirmar que esta dualidade de critérios das televisões e dos atores políticos resultaria de haver dois pesos e duas medidas. Mas não, trata-se do mesmo peso e da mesma medida: o desejo de garantir o domínio político e económico do planeta por parte daqueles que, hoje, o detêm. Daí se tentar vender as narrativas dos bons contra os maus. E que, no fim, os bons ganham – outra história mal contada, essencial para que se aceite o envio contínuo de armas. Mas nem sempre os bons ganham – e o massacre dos Índios americanos, ou o roubo do Texas ao México, são a prova disso mesmo…

As horas infindáveis de televisão e os milhões de euros de armas nunca resultaram da preocupação com os direitos humanos ou com a Ucrânia. Caso contrário, a Jugoslávia, o Iraque ou a Palestina teriam tido a mesma atenção. E, nestes casos, venderam-nos a história que os bons eram os invasores e agressores… O motivo para esta dualidade de critérios é a perda progressiva de poder económico e político das chamadas democracias ocidentais, mas tornou-se necessário esconder esta realidade.

Vem isto a propósito do arquivamento das investigações sobre a Câmara de Setúbal e a Associação dos Emigrantes de Leste e da conclusão de que, afinal, agiram corretamente e contribuíram para a integração de cidadãos ucranianos. Já na altura teria sido possível esta conclusão, mas deu jeito vender mais esta história. E não se ouvem agora os devidos pedidos de desculpas pelas acusações infundadas e pelos danos significativos que foram causados. Seria de esperar – e até exigir – que PSD, PS, IL e CHEGA tivessem, na altura, tomado posição a partir dos factos que eram conhecidos. Preferiram ignorá-los e, agora, deviam retratar-se das acusações completamente infundadas que fizeram. Também parece inexplicável que as acusações tenham tido semanas de tempo de antena, mas o arquivamento tenha ocupado breves minutos da comunicação social…

Ao mesmo tempo que se acusava a Câmara de Setúbal, a Câmara de Lisboa atribuiu estas funções a uma associação ucraniana, cujas posições públicas faziam recear pelos ucranianos que fugissem da guerra ou que fossem opositores ao regime ucraniano. Hoje, como se sabe, são ambos considerados crimes, e a segurança destes refugiados poderá ter sido posta em causa, sem que isso tenha ocupado um minuto de televisão.

E o que dizer da estafada história de que o PCP está do lado da Rússia, de Putin ou que apoia esta guerra? Não há um facto ou uma posição que sustente essa opinião. E já em 2014 a Festa do Avante! apelava à Paz na Ucrânia! Mas nada disso é novo, aliás, encaixa-se nos inúmeros ataques a cada Festa do Avante!, com destaque para as de 2020 e 2021. Como os factos demonstram, foi muito barulho por nada, ou melhor, muita acusação para nenhuma infeção por COVID-19.

Sinteticamente, a posição do PCP sobre a guerra é que todos os esforços têm de ser dirigidos à Paz e à abertura de negociações. Há quem discorde e prefiraprolongar esta guerra. Eu acho que não estão a pensar nos milhares de vitimas e danos, já para não falar na destruição económica e ambiental. Os ataquesdo exército ucranianoà central nuclear de Zaporizhia serão a melhor prova disso mesmo! Mas o que acho completamente inaceitável num sistema democrático é a constante imposição de uma opinião única.

A ganância e a sede de poder têm destas coisas: levam por caminhos impossíveis e indesejáveis, levam a histórias mal contadas que não correspondem à realidade. A consequência é o prolongamento da destruição e da perda de vidas humanas. Mas há um facto a que têm fugido todos os partidos políticos, com exceção do PCP. É que o futuro da Ucrânia terá de passar por relações políticas e económicas com a Europa e com a Ásia,  a começar pela Rússia. Mesmo que isso pareça, neste momento, impossível. Por isso, no imediato, é urgente voltar às negociações com vista à Paz, e não pela estimulaçãode uma guerra fraticida.

Pub