Opinião: Rui Teixeira | É possível avaliar 3 anos em 3 horas?

Os exames nacionais da 1.ª fase tiveram já os seus resultados afixados. Milhares de alunos ficaram a saber se concluíram o 9.º ano ou se as suas notas permitem esperar entrar no curso que pretendem. Esta é uma boa altura para pensar a sério sobre o efeito dos exames nestas crianças e jovens e no futuro do país – e dos Açores, em particular. É que, envoltos em aparato mediático, ficam disfarçadas as suas fragilidades.

No fundo, o maior engano é que os exames podem ser totalmente rigorosos e quase infalíveis. Não podem. Não é possível avaliar em 3 horas a riqueza de 3 anos de aprendizagens. Não é possível elaborar questões tão rigorosas que avaliem corretamente milhares de alunos ao mesmo tempo, vindos de realidades educativas tão diferentes como das Velas, da Horta, de Ponta Delgada, de Lisboa ou de Beja. Não é possível definir critérios de classificação tão perfeitos que sirvam para todos os alunos e pensem em todas as respostas corretas possíveis. Nem sequer é possível definir critérios de classificação tão objetivos que sejam infalíveis. Caso contrário, não haveriam reapreciações de provas, de onde é frequente haver variações das notas, em 1, 2 ou 3 valores. Nem haveriam as polémicas anuais sobre as questões e sobre os critérios de classificação, com tantas opiniões contrárias.

Pode ainda pensar-se nos alunos que se enganaram num pormenor que lhes estraga o resultado, ou que estavam nervosos, ou que estavam mal dispostos e não realizaram a prova em boas condições. São azares que acontecem facilmente numa prova de 3 horas, que não podem ser invertidos e que lhes custa, pelo menos, um ano da sua vida. No limite, pode-lhes custar todo o futuro que desejam. Quantos alunos estarão nestas condições? Quantos alunos não terão conseguido aquilo para que trabalharam em resultado de pequenos enganos, de questões mal formuladas, de critérios de classificação que não previram uma determinada resposta? Certamente terão sido dezenas de milhares, ao longo dos anos.

Mas, para mim, o pior dos exames é que não contribuem em nada para melhores aprendizagens, o que prejudica seriamente o futuro do país e da região. E não se pense que esta opinião é apenas minha. Em 2015, o presidente do IAVE, instituto responsável por todo o processo dos exames e provas nacionais, reconhecia isso mesmo e assumia ainda que as escolas tendiam a treinar os alunos para fazer os exames, deixando as aprendizagens para segundo plano. E isso é que é dramático, tanto para os alunos, como para o nosso futuro, porque coloca em causa o papel da Educação e do Ensino no desenvolvimento do País e da Região.

Na verdade, os exames não estão construídos para a seleção dos melhores. Estão pensados para os que tiveram explicações e apoio familiar, os que tiveram condições, em casa, para estudar, os que não tiveram de ajudar os irmãos, os avós ou os pais. E, como se sabe, milhares de alunos açorianos não se encaixam neste perfil, em resultado dos baixos salários ou de horários de trabalho que retiram tempo à família. Assim, são deixados para segundo ou terceiro plano.

Como tem afirmado o PCP, há alternativas ao modelo de seleção de alunos para o Ensino Superior. Há alternativas ao modelo de provas para monitorizar o sistema educativo. Mas tudo isso implicava dar melhores condições às escolas para exercer o seu papel, dando-lhes verdadeira autonomia, pensando na formação integral do aluno, pensando a Educação para contribuir que os alunos sejam futuros cidadãos críticos, empenhados, interventivos e solidários. E isso é algo que cada um dos governos tem recusado, tanto na República, como nos Açores.

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