Opinião: Rui Teixeira | Com medo, não há democracia

A Colômbia elegeu, pela primeira vez, um presidente que não pertence à poderosíssima oligarquia do país. Gustavo Preto, à frente de uma coligação de esquerda – o Pacto Histórico – venceu o candidato neoliberal, o milionário Rodolfo Hernández.

De acordo com o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz, o Indepaz, só  durante este ano, foram assassinados quase mil dirigentes de organizações sociais, incluindo sindicalistas. Apesar dos acordos de paz, foram assassinados 245 ex-guerrilheiros. Ocorreram 261 massacres, com mais de mil vítimas mortais. A campanha eleitoral foi marcada por ameaças de morte – inclusive ao candidato vencedor – e, no dia das eleições, um dos fiscais e dois outros elementos do Pacto Histórico foram assassinados.

Este cenário não se alterou com a derrota, na primeira volta, do governo de Ivan Duque, depois de o seu candidato, Federico Gutiérrez, candidato da Equipo por Colombia – apoiado pela extrema-direita – ter ficado em terceiro lugar. A violência manteve-se na segunda volta mas, mesmo assim, no discurso de vitória, o novo presidente afirmou que esta não é uma «mudança para nos vingarmos, uma mudança para construir mais ódios, uma mudança para aprofundar o sectarismo na sociedade colombiana». A vontade de construir uma sociedade assente na tolerância, no respeito e na solidariedade é sempre de louvar. Mais ainda quando quebra com séculos atravessados por ciclos de violência crescente.

Viver na Colômbia significa viver com medo. É um país em que o poder político e económico é apoiado pelos EUA, nomeadamente com o treino e armamento de grupos paramilitares de extrema direita. O dia a dia é marcado pela violência, pelo crime, pelo narcotráfico e pela corrupção. O resultado só podia ser a pobreza e o controlo pelo medo.

Mas tudo isto mudou. Não foi de repente. Como disse um colombiano, tiraram-nos tudo, até o medo. Mais rigoroso seria dizer que os obrigaram a enfrentar o medo. A degradação da situação social no país conduziu a poderosíssimas manifestações populares – incluindo a maior e mais longa greve geral dos últimos 30 anos – e ao apoio crescente a soluções políticas novas. Assim se explica a vitória da esquerda: os de baixo já não aceitavam e os de cima já não podiam.

Lentamente, a América Latina vai recusando ser uma colónia do século XXI, mandada pelos Estados Unidos da América. Os últimos anos mostram-no claramente. Em dezembro, foi o Chile. Em junho, a Colômbia. E em outubro, previsivelmente, será o Brasil, com a derrota de Bolsonaro. Alargam-se progressivamente os países que afirmam a sua soberania e a vontade de escreverem o seu próprio futuro.

O que esta evolução mostra é que, no século XXI, as relações internacionais terão de se basear na cooperação e no respeito mútuos, e não na imposição e na violência. Por todo o globo exigem-se respostas – sociais, económicas, ambientais – que o capitalismo, simplesmente, não pode dar. As velhas soluções políticas caminham para o esgotamento, afogadas na desigualdade social que produzem. E essa será, talvez, a lição mais importante que os seculares povos da América Latina nos têm dado, neste novo século. Que, afinal, ainda tem muito de velho… Mas isso será um assunto diferente, para abordar noutro artigo.

Pub