Opinião: Rui Teixeira | A Educação não pode esperar!

Este é o lema do 14.º Congresso da FENPROF, que começa hoje, e diz muito sobre a combatividade e capacidade de proposta desta federação sindical. Falta de professores, envelhecimento do corpo docente, desgaste profissional, alunos com situações sociais e pessoais dificílimas, desinvestimento nas respostas educativas, aumento do tempo de trabalho para níveis insuportáveis, perda de autonomia e tantos outros: será difícil escolher o maior problema da Educação. Mas é impossível esconder que todos eles têm origem na falta de financiamento, aliás, a OCDE propõe 6% do PIB para a Educação, mas os orçamentos do estado destinam apenas metade.

Este desgoverno colocou, tanto o país, como os Açores, à beira do precipício: ou invertemos rapidamente a falta de atração da profissão, ou esta Escola, que tanto trabalho deu a construir, poderá acabar, em menos de 10 anos.

Este é um problema que deveria preocupar seriamente ministros e primeiros ministros, que fogem às negociações, ou que mandaram professores, enfermeiros e portugueses em geral emigrar e não serem piegas. E, em particular, Maria de Lurdes Rodrigues, ministra da educação do governo do PS de José Sócrates, que disse, recentemente, num debate da RTP para o qual a FENPROF não foi convidada: não sabe como chegámos a este ponto, e não quer saber. Não teria sido melhor a RTP convidar a FENPROF, que é quem melhor sabe e mais quer saber?  E que tem alertado para este problema há mais de 10 anos?

Esta é uma espécie de magia, uma desinfeção institucional dos tempos modernos: os governos até nem se importam de ter escolas, mas seria preferível não ter professores…

Não é possível um sistema funcionar, maltratando aqueles que o põe a funcionar. E há mais de 20 anos que os professores e educadores têm sido maltratados, apesar do seu empenho. Não é por acaso que metade apresenta sintomas graves de esgotamento! É o resultado das opções políticas e de uma profissão extremamente exigente.

É verdade que, para um professor, o seu empenho é natural – afinal, trata-se da profissão que escolheram e que, na sua essência, implica dedicarem-se aos alunos. É difícil estar à frente de 25 crianças e não lhes oferecer todo o seu esforço. Mesmo quando as forças começam a falhar. O que é extraordinário, quando pensamos que cada docente tem, à sua responsabilidade, no mínimo, 150 alunos, ou 10 turmas, ou 5 disciplinas diferentes no mesmo dia.

Cada aluno que entra numa aula tem a sua história própria, que lhe marca o presente e condiciona o seu futuro. Refiro-me a situações familiares complexas, pobreza e até fome, receios, sonhos, sucessos e fracassos… A tudo isso, cada professor responde, dando o seu melhor para que a escola possa ser o tal elevador social de que falam os governos que, depois, esmagam os sonhos destes alunos. É que o empenho não resolve tudo. É também preciso condições para ensinar e aprender, condições para, depois da escola, cada criança, cada jovem, construir o futuro que quer e merece.

Os discursos bonitos de amor à escola e à educação, utilizados nas campanhas eleitorais, não batem certo com a vida dos docentes. Estar 20 ou 30 anos sem saber onde trabalhará em setembro, ou se terá salário para pagar casa. Uma carreira destruída. Desgaste profissional, acelerado a partir dos 50 anos, pelas exigências da profissão. Uma avaliação injusta, que prefere critérios administrativos e económicos, esquecendo os critérios pedagógicos. Tudo isto será debatido pelos professores, no Congresso.

Se as propostas da FENPROF tivessem já sido concretizadas, estes e muitos outros problemas não existiriam. É tempo de mudar, de obrigar os governos a assumir se querem um país com ou sem escola. Como se fosse sequer possível, no século XXI, imaginar um país sem escola…

Inverter o rumo destes últimos anos obrigará, necessariamente, a olhar com seriedade e atenção para as posições da FENPROF. E para tudo aquilo que será dito neste congresso. Que, como todos os anteriores, será combativo, cheio de debate, de solidariedade e de propostas!

Pub