Opinião: Rui Teixeira | A alma do Teatro são os seus trabalhadores

É fácil olhar para o Teatro Micaelense e ficar impressionado. A praça aberta, o edifício de traça típica, uma dimensão simultaneamente grande para nos atrair mas não o suficiente para ser ostensivo. Claramente, é um edifício que acrescenta beleza à já bonita Ponta Delgada, enquadrando-se bem no meio da sua malha urbana.

Mas, ao olhar para o Teatro, é fácil esquecer que há quem lhe dê vida. São os seus trabalhadores. Que fazem tudo para serem quase invisíveis durante o espetáculo. Que nos permitem ouvir e ver, apreciar as “emoções que só a arte pode oferecer”, como afirmam os Amigos do Teatro Micaelense.

O Teatro Micaelense tem apenas 20 trabalhadores, número claramente inferior ao que seria necessário. Desde a intervenção de 2004, as obras de manutenção praticamente pararam. Há espaços interiores limitados ao público porque chove lá dentro. E estes problemas só não são mais graves porque estes 20 trabalhadores garantem numa dedicação louvável.

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E é por isso que digo que são eles a alma, o coração e o cérebro do Teatro. Sem eles, a beleza do Teatro rapidamente deixaria de existir. Ora, estes 20 trabalhadores, altamente qualificados para a função e com muitos anos de experiência, ganham o mesmo que há 20 anos. Metade recebe apenas o salário mínimo, a esmagadora maioria recebe menos de 1000€. Não têm progressão na carreira. Não têm horário fixo, para que possam assegurar a programação.

A isto acresce que o orçamento do Teatro tem sido insuficiente para as despesas, nomeadamente para a manutenção do edifício. E este problema vai-se agravar em 2023, porque a verba atribuída pelo governo regional não chega para as despesas correntes: água, eletricidade, salários, seguros, inspeções e outras.

O Teatro merece mais respeito. Os seus trabalhadores merecem mais respeito. E, por isso, o grupo de amigos do Teatro Micaelense, nos quais se incluem os seus trabalhadores, decidiu levar este problema a público e exigir soluções. Neste momento, está a decorrer um abaixo-assinado que, numa semana, recolheu mais de 750 assinaturas.

Das forças políticas regionais, até agora, só o PCP denunciou esta situação e se colocou do lado do Teatro Micaelense e dos seus trabalhadores. Aliás, isso vem no sentido da sua exigência de longa data, de a Cultura ter destinada 1% das verbas públicas. No caso dos Açores, essa verba até deverá ser superior, porque há despesas que são asseguradas pela República, por serem da sua competência.

Por tudo isto, é hora de valorizar o Teatro e os seus trabalhadores. De valorizar a Cultura Açoriana, que tem ali um espaço privilegiado para ser partilhada. É hora de fazer algo que não é nada extraordinário – é, apenas, da mais elementar justiça: reconhecer, na prática, o direito a uma Cultura de qualidade, o direito a um salário digno e justo, o direito a proteger a nossa memória e a nossa identidade. É hora de impedir a degradação e o definhamento do Teatro Micaelense.

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