Opinião: Rui Martins | Neto, o Reto

Não posso dizer que tenha sido coincidência, mas li aqui há dias um artigo de Joel Neto e vi-o depois no programa da RTP-Açores “O Novo Normal”.

Num artigo de opinião, Joel Neto dizia que havia “um governo do PSD, empenhado em trabalhar com os melhores” e uma “microcoligação CDS-PPM, determinada a fazer terra-queimada de tudo o que ficou para trás (inclusive do que foi bem feito), a perseguir pessoas de que não gosta (…).”

A primeira pergunta que se impõe é: quem é que o CDS perseguiu? Pode concretizar? E pergunto isto, porque, sem ir muito longe, e não saindo do Faial, se há critica que me chega aos ouvidos é de que as áreas da administração sob tutela do meu partido só promovem ou dão continuidade nos cargos a socialistas… é assim no ambiente, é assim no ISSA, e poderia continuar.

Pergunto ainda o que é que vinha de trás, bem feito, que foi abandonado? Pode concretizar? Não se abandonou a marca Açores, que o senhor conhece bem, por dentro e por fora, por exemplo…

Em contraponto, diz que o PSD o que fez (bem, segundo diz) foi promover, socialistas a chefes de divisão e chefes de secção. E aqui a coisa piora. Aqui já não é só não concretizar, mas acaba por demonstrar o quanto a orgânica do Governo Regional dos Açores (GRA) lhe passa ao lado.

O PSD não poderia ter colocado socialistas em chefes de secção, porque tão pouco esse cargo agora existe.

Não estou a dizer que seja por demais importante estar a par destas coisas, mas quem se arroga ser comentador, deve pelo menos inteirar-se sobre o que fala ou então prestar mais atenção.

Essa notória falta de atenção foi por demais evidente num episódio do programa televisivo (e abro aqui um pequeno parêntesis para dizer que fiquei agradado quando o programa apareceu, e que considero que há espaço para aquele tipo de conteúdo na nossa televisão regional), que incidiu sobre uma discussão no parlamento entre Duarte Freitas e Vasco Cordeiro.

Aqui, Joel Neto diz que Duarte Freitas não devia insinuar, mas concretizar o que é que sabe sobre alegadas irregularidades cometidas por Vasco Cordeiro. O mesmo que lhe peço que faça quanto a perseguições.

Quem assistiu ao debate, ouviu Duarte Freitas dizer que as irregularidades se prendiam com avales assinados pelo então GRA à Ilhas de Valor que não foram assinados a outras empresas açorianas. Foi concretizado, mas não percepcionado por Joel Neto (e em abono da verdade, por nenhum dos restantes colegas de painel). E não vejo mal nenhum nisso, é um programa leve, mas aflorar as coisas pela rama com grande grau de imprecisão, não pode ser o novo normal.

Lembro-me de Joel Neto regressar à Região. Disse que vinha para ser escritor. No entanto, parece que o primeiro capítulo que escreveu foi o programa eleitoral do PSD. Talvez por isso queria ser candidato a deputado pela ilha terceira.

No ano seguinte o escritor Neto, reto na sua determinação, ainda insistiu e em 2013 queria ser, ao que parece, número dois à Câmara Municipal de Angra, numa coligação, curiosamente com o CDS. Mas o PSD não o quis… terá sido perseguido? Afinal não gostam dele?

Por fim amuou, e desfiliou-se do PSD.

Lembro-me, por isso, de o ver defender o PSD e os seus líderes, mas há não muito tempo, os mesmos actores, já não eram assim tão capazes… mas eis se não quando, afinal o PSD busca os melhores, e tudo seria um mundo maravilhoso se não fosse o CDS e o PPM. Parece que o novo normal é criar uma narrativa que permita ao PSD ir a eleições sozinho… como aconteceu com o PS nos finais dos anos 90.

Já escreveu um programa eleitoral, e alguns livros que, confesso, não li (mas que por acaso comprei) por isso talvez se esteja a preparar para escrever uma narrativa que reescreva a realidade dos factos, o que para um escritor que cultiva o gosto pela pesquisa histórica deixa um pouco a desejar.

Está a preparar-se para o quê? O que será que espera dos bons do PSD agora?

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