Opinião: Rui Martins | Moura de trabalho

Acompanho com estranheza a idiossincrasia da Ordem dos Médicos.

Dia após dia, entre jornais, rádio e televisão, multiplicam-se considerações, preocupações, reivindicações pela voz da Presidente da Ordem dos Médicos nos Açores (OMA)… confesso que, por um lado, não vejo que o conteúdo dessas intervenções estejam no âmbito de uma Ordem profissional, e por outro, não vejo paralelo dessa intervenção ao nível nacional em situações em tudo semelhantes e outras até muito mais graves.

Saliento o facto de as reuniões da OMA serem marcadas pela altura da discussão do Plano e Orçamento da RAA para 2023, talvez como forma de pressão e condicionamento da acção política. Mas pior do que isso, verifica-se é que Democracia não está no léxico da Dr.ª Moura.

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De acordo com as declarações do Vice-presidente do Conselho Médico da OMA, a reunião durou menos hora e meia do que o anunciado pela presidente, foi dificultada a participação dos médicos que estavam online, propositadamente não se ouvia online o que era dito na sala presencial e nem a ordem de trabalhos era clara ou foi clarificada.

A ordem de trabalhos era “a actual situação a fim de podermos perspectivar o futuro.” Eu arrisco-me a dizer que a ordem de trabalhos foi mais algo do género:

1 – Horas e pagamentos;

2 – Pedido de desculpas;

3 – Derrubar o Conselho de Administração (CA) do HDES.

E digo isto porquê? Muito fácil e respectivamente:

1 – A Assembleia legislou para que a Região pudesse deixar de depender tanto de tarefeiros (empresas contratadas para os serviços de urgência) que recebem cerca de 2000€ por fim-de-semana, e permitir que fossem os médicos que já cá estão a poder ganhar esse dinheiro. Ora, aparentemente não era suficiente, uma vez que na Madeira e no Continente ganham mais 10€/hora. A diferença é que aqui era para os próximos dois anos, na Madeira e Continente, acaba no final deste ano.

2 – Foi uma das declarações da OMA. Inclusivamente dizendo que sem pedido de desculpas, quem sofre são os doentes, à semelhança do que disse o Bastonário da Metrópole. De qualquer forma, e uma vez que a Dr.ª Margarida Moura está a exigir um pedido de desculpas, eu gostaria de saber quando é que a “Sotôra” vai pedir desculpa aos açorianos pelo facto de realizar dezoito (18) consultas por ano, ao invés das quatrocentas (400) dos seus colegas de serviço?

3 – Cada vez mais notória a concertação. Ainda esta semana a Dr.ª Moura apareceu ao lado de um dos médicos demissionários, como se fosse um sindicato. A intenção é pôr em causa um Conselho de Administração que, apesar das 18 consultas da Dr.ª Moura, conseguiu que o HDES de Ponta Delgada atingisse indicadores de produtividade muito acima dos indicadores pré-pandemia.

Neste particular devo ainda referir outro aspecto… porque é que a Dr.ª Moura não insta o seu Bastonário da Metrópole a pronunciar-se sobre situações idênticas?

Então é assim, no dia 28 de Novembro, “os chefes de equipa do Serviço de Urgência Geral do Hospital de Almada apresentaram a demissão em protesto com a escala de Dezembro, que consideram estar abaixo dos mínimos” (sic noticias).

Aqui a carta de demissão foi enviada ao Director Clínico e não houve pronúncia nem do Bastonário da Metrópole, nem foi pedida a demissão do Conselho de Administração do Hospital.

Talvez a Dr.ª Moura não queira aborrecer a Dr.ª Teresa Luciano… sim, sim, essa mesma, a anterior Secretária Regional da Saúde, do governo socialista, é a presidente do CA do Hospital de Almada.

O Bastonário da Metrópole teve tempo para vir ao telejornal açoriano fazer exigências, mas esteve cego, surdo e mudo relativamente ao que se passava à porta de casa.

A Dr.ª Moura é por estes dias uma Moura de trabalho sem dúvida… fazer o seu trabalho, isso já é outra história.

 

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