Opinião: Luís Noronha Botelho | É necessário concluir o Passeio Atlântico na ótica deste século

Ao longo do século XX os “influenciadores” da opinião pública e os principais dirigentes locais defenderam uma utilização do litoral da Ribeira Grande numa perspetiva que está desatualizada e desadequada.

Até ao fim do século, a praia de Santa Bárbara serviu para extração de inertes para a construção civil, a ponto de desaparecer toda a areia, nesta e nas duas praias vizinhas, a de Santana e a do Monte Verde.
No fim do século ainda havia quem defendesse a construção de muros para impedir o acesso às praias devido “ao perigo do mar do norte”.
Antes disso, em meados do século XX despejou-se entulho sobre o areal da praia do Monte Verde, praticamente sobre a linha da maré alta, para permitir o acesso entre o bairro do Bandejo e o Monte Verde. O antigo areal tem servido apenas, nos últimos anos, como recinto do festival “Monte Verde”.

Os fazedores de opinião pública, tendo como figura principal o Dr. Jorge Gamboa de Vasconcelos, perante o aspeto degradante de todo o litoral da Ribeira Grande, onde desaguavam os esgotos, onde se despejava o lixo e o entulho, onde existia o espaço urbano mais pobre e desordenado, propunham a construção de uma “avenida marginal”.
Esta serviria de “tapete sobre o lixo”, ocupando toda a linha de costa e serviria para circular o trânsito, seguindo o modelo das marginais de Ponta Delgada e Horta.
Felizmente que aquelas ideias não se concretizaram!

Apenas em 2008, com o areal recuperado, foi aberta a praia de S. Bárbara, com equipamentos e condições para ser frequentada por banhistas e praticantes de desportos de mar. A praia do Monte Verde, apesar de subsistir a poluição da água, passou a ser alternativa. A procura cresceu, começaram a realizar-se provas de surf internacionais, a atração pelo mar foi força motriz para o desenvolvimento do turismo. A ponto de defender-se o título de “capital do surf”, com estátua a reforçar o estatuto.
Será contraditório e até absurdo voltar às propostas do século passado, anulando tudo o que foi conquistado.

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Quem defendia (ainda há quem defenda?) as “propostas do Dr. Jorge”, provavelmente só tomaram uns semicúpios nas Poças. Quase certo que nunca deram um mergulho no mar que consideravam “perigoso”. De certeza que nunca praticaram surf, body board, wind surf, ou outra modalidade semelhante.
Agora a situação é outra, há que defender as praias e respeitar a procura e a vontade dos seus utilizadores. Existe o Plano de Ordenamento da Orla Costeira que tem de ser cumprido e há que acabar com os focos de poluição que ainda subsistem e respeitar a biodiversidade que inclui espécies únicas, endémicas e nativas, em quantidade que não se observa noutros locais.

É necessário respeitar a configuração natural da costa sem a artificializar. A construção de um paredão, de um enrocamento, sobre a linha da maré cheia iria, a prazo, destruir a praia do Monte Verde. É fácil comprovar que desaparece a areia, ou esta não se deposita nos sítios onde o mar bate na rocha. Se observarmos o paredão existente junto à ponte verificamos que a areia desapareceu. Ao contrário do que se afirma, isso não serve para evitar a erosão marinha, pelo contrário, agrava-a.

Atualmente as prioridades são diferentes, privilegia-se o passeio pedestre, de bicicleta e outros meios não motorizados. O ordenamento do trânsito nas cidades passou a ser radial, afastando-o do centro e do atravessamento transversal da área urbana.

É necessário continuar e concluir o Passeio Atlântico!
A obra pode avançar sem obstáculos sobre a malha urbana que existia, sem avançar com pedra e betão sobre o mar.
Ouçam os especialistas, os pareceres técnicos, para que não se perca um dos maiores valores da Ribeira Grande e que todos os responsáveis locais se comprometem defender com a divisa de virar a Ribeira Grande para o mar.
São as mais extensas e as melhores praias para a prática dos desportos de mar.
Há que defendê-las.

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