Opinião: Joaquim Machado | Vingar Alcácer-Quibir

Ainda tenho na memória aquele jogo de 1986. Onze de junho, acabáramos de celebrar o Dia de Portugal, que também fora da raça, e ali estavam os marroquinos, outra vez, a humilhar o exército luso. Como outrora com o jovem rei, também nesse Mundial do México desprezámos as forças africanas. Julgávamos que o jogo seria como a incursão por Ceuta adentro, na gíria, favas contadas, fazendo tábua rasa de Alcácer-Quibir, o desastre, que veio depois e não podia ser esquecido.

Mas o jogo foi isso mesmo, um desastre. E de nada valeu a vitória inicial frente aos ingleses – coisa de velhas alianças. Aliás, fora de campo houve mais luta do que dentro dele. Pela segunda vez numa fase final, os jogadores julgaram-se vedetas internacionais, quando apenas erámos uma modesta seleção. Em vez de ganhar jogos, os selecionados trataram de somar escudos às respetivas contas bancárias, exigindo o aumento da diária e dos prémios de jogo e uma percentagem da publicidade. A alternativa era,e foi, a greve e as festas que se prolongaram, dias a fio, na discoteca do hotel onde se alojava a comitiva. A revolução chegava ao futebol, por infiltração de comunistas, dizia-se. O alarido saltou para o Parlamento e até o Presidente Soares apelou ao bom senso.

O “caso Saltillo” ficou para memória futura? Regressámos à prova 16 anos depois, sem greves, é verdade, mas com outro tanto de desacerto e indisciplina, esta celebrizada nas manifestações de carinho de João Pinto ao árbitro do Coreia-Portugal. Enfim, valeu a participação do nosso Pauleta…

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Mas voltemos à contenda com Marrocos, porque é disso que agora se trata. Chegou a hora de vingar Alcácer-Quibir (e já agora Gualajara). D. Sebastião não voltará, nem a glória e a coroa perdidas no México. Mas deixem-nos sonhar até quarta-feira. E depois se verá.

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