Opinião: Joaquim Machado | QATAR OUTRO

Joguei futebol em campeonatos nacionais e em aguerridas provas regionais e de ilha e, como muitos saberão, durante vários anos fiz jornalismo na área desportiva. Ainda hoje sou dirigente numa federação…

Apesar de tudo isso, dificilmente gasto um minuto a consumir debates estéreis sobre arbitragens polémicas, negócios da bola ou declarações de dirigentes de duvidosa estatura ética. Prefiro o prazer de um bom jogo de futebol, uma partida de râguebi, um meeting de atletismo. O Mundial do Qatar será um desses momentos. A qualidade das seleções justifica o entusiasmo que se gera à volta deste evento, verdadeiramente global.

Em Portugal, apurada a seleção, a festa dá lugar à polémica, não sei se por baixas expetativas se por conveniência de comunicação. Vai longa a lista de governantes socialistas envolvidos em complexas teias de favores e adjudicações ao arrepio da lei e, por isso, nada melhor do que distrair a arraia miúda com outros assuntos. Por exemplo, o desrespeito pelos Direitos Humanos no Qatar. É um falso problema? Muito pelo contrário. Mas pouco adianta a discussão que vai na praça sobre a deslocação das primeiras figuras do Estado àquelas paragens do médio oriente. Desde logo por não serem viagens diplomáticas e por não sancionarem a ditadura que ali impera. Se fosse à China, à Venezuela ou a Cuba, haveria todo este alarido?

Curiosamente, os que agora se insurgem contra a realização dos jogos no Golfo Pérsico e esboçam mediáticos boicotes ao seu visionamento estiveram quedos e mudos durante mais de uma década. Sim, digo bem, a realização do campeonato foi decidida em 2010 e todos se calaram, entretanto, num verdadeiro cinismo processual.

A promiscuidade entre política e futebol tem vários sentidos e protagonistas. A ocasião faz o jogador. Apetece gritar: vai Qatar outro.

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