Opinião: Joaquim Machado | Para divertir

Dizem que a canícula perturba alguns espíritos, e eu acrescento a humidade. Na incerteza do verão que por aí vai, entremeado com outras estações, só a saturação pode explicar a apoquentação que certas almas revelam. Refrescasse-se-lhes o discernimento e logo a memória lhes avivaria a patifaria feita anos a fio. De nada vale o ar aluado que exibem cada vez que apontam o dedo e reclamam rigor, transparência e parcimónia, afinal, a história não se varre para um canto, e a culpa não se expia só com piedosos atos de contrição. A gente lembra-se do que andaram a fazer…

E como tudo na vida, também na política o exemplo deve vir de cima, no caso vem, o que só agrava a insanidade do discurso.

Antes de 2000, a República liquidou a dívida pública açoriana. O contador das finanças regionais voltou a zeros, abrindo caminho para novos investimentos, pela primeira vez, altamente financiados pela União Europeia. O desafio era, portanto, conciliar o entusiasmo do investimento com o rigor da despesa, mas exageramos num e descuidámos no outro. E foi o que se viu, em 20 anos a dívida galopou para uns fatídicos 3.500 milhões de euros, que o contribuinte paga sob diversas formas: com os seus impostos e pela redução de serviços e investimentos, à conta do chamado serviço da dívida, vulgarmente designado por juros, que a banca não perdoa, como sabemos.

As finanças regionais estão afogadas em dívidas. Por mais que se faça, só os encargos com a dívida da SATA, do Serviço Regional de Saúde e das SCUT (as estradas de S. Miguel e o Hospital da Terceira) consomem anualmente centenas de milhões de euros.

Ouvir Vasco Cordeiro falar do défice nas contas públicas, no primeiro semestre do ano, não é dramático, porque os açorianos deixaram de levar o homem a sério – para divertir, bastam a bola, a Volta das bicicletas, os toiros e toda a sorte de festa que por aí temos.

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