Opinião: Joaquim Machado | Ilusionistas

Sem internet e, portanto, também sem a Google e outros motores de busca, o acesso à informação, no meu tempo de miúdo, era complexo, difícil, diria mesmo, seletivo. E o que se diz do acesso ao conhecimento é válido para outros bens. Havia coisas raras, que pela sua natureza, se tornavam mais escassas dada a sua origem em territórios então longínquos, acrescendo a tudo isso, inevitavelmente, o custo elevado.

Ter um kit de ilusionismo – hoje é mais usual dizer-se de magia – com os apetrechos que iludiam uma pequena plateia de amigos, era meio caminho para fazer sucesso na nossa rua e arredores. Nunca cheguei a ter a milagrosa caixa, mas a sorte compensou-me com um livro da dita arte e pelo qual fui capaz de produzir meia dúzia de truques, que nunca subiram ao palco. Ainda assim ganhei a admiração dos que tiveram o privilégio de ver essas atuações domésticas (e eu tive o privilégio de os ter por espetadores, atentos e satisfeitos, a avaliar pelos aplausos). Equilibrei um copo cheio de água sobre uma carta, fazia rolar uma bola sobre pano preto, simulava extrair da boca uma enorme fita de tecido colorido, retirava lenços de uma caixa supostamente vazia e fazia desaparecer um cubo enorme numa pequena caixa – pouco mais do que isso. A falta de novas magias rapidamente esgotou o meu público e de caminho perdi o entusiasmo pela dita carreira.

Hoje tudo é diferente. A própria política absorveu a arte da magia, dando palco a toda a sorte de ilusionistas, verdadeiros criativos no engenho de enganar eleitores. Mesmo aqui à porta, os deputados socialistas na Assembleia da República “reforçam” verbas que deviam estar inscritas no Orçamento do Estado ou obrigam o dr. Costa a pagar à nossa Universidade o que ela tinha direito, vai para três anos.

Digam lá se isto não é magia. Negra? Quase.

Pub