Opinião: Hernâni Bettencourt | Visões estranhas  

1 – Na saúde

Vive-se um verdadeiro caos no serviço regional de Saúde. Mas não é diretamente sobre isso que me quero debruçar. O cerne deste texto é de âmbito mais filosófico ou dogmático. No meio da catadupa de declarações públicas das últimas semanas, destaco as intervenções da responsável da Ordem dos Médicos nos Açores. A Dr.ª Margarida Moura disse, no final de uma reunião da ordem dos médicos para analisar as infelizes declarações de Artur Lima, que “sem médicos não há sistema de saúde” e acrescentou logo de seguida que “quem não gosta de médicos não gosta dos doentes”. Ora, se estas afirmações já davam “pano para mangas”, a verdade é que a coisa ainda piorou. Sua Excelência ainda disse e cito o seguinte: “se não há um bom ambiente de trabalho e os médicos estão a ser ofendidos e vilipendiados, em última análise quem sofre são os doentes”. Não sendo médico e tendo um imenso respeito pela classe, vejo-me, enquanto cidadão, obrigado a dar réplica pública ao que ouvi da representante máxima da ordem dos médicos nos Açores. “A saúde do meu doente será a minha primeira preocupação”. Isto mesmo consta do juramento de Hipócrates, o qual é efetuado por todos os médicos. A ilustre representante da ordem dos médicos fez, garantidamente, tal juramento. Lamento, profundamente, não vislumbrar o mesmo nas suas declarações. O centro do sistema de saúde não são os médicos. Nem outra qualquer carreira profissional. O sistema de saúde existe para servir o doente (utente). O utente é o centro e a “peça” mais importante do sistema! Julgava eu que isto era um facto notório. E factos notórios, em termos jurídicos, não carecem de prova!  Mas se calhar não é bem assim…

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2 – Na política

A política está também pejada de visões estranhas. Não me refiro a visões diferentes, consoante o Partido, sobre determinado assunto ou tema. Refiro-me a um fundamentalismo que vai ficando enraizado. Nós somos os bons e eles os maus. Nós fazemos tudo bem feito e eles fazem tudo mal. O nosso pior é melhor que o melhor deles. Este mundo de negação, independentemente do lado da “trincheira”, não leva a lado nenhum. Julgo, apesar de tudo, que os próprios intervenientes têm consciência disso. Às vezes até dou por mim a ouvir alguém e penso, de imediato, que o próprio não acredita naquilo que está a dizer. É que ouço cada argumento que, supostamente, é apresentado como um grande trunfo, mas cujos pés são tão frágeis, que não me passa pela cabeça que o próprio não tenha consciência disso… Mas se calhar estou, outra vez, enganado.

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