Opinião: Hernâni Bettencourt | Virar o bico ao prego

Esta é uma expressão popular que traduz bem aquilo que Duarte Freitas, Secretário Regional das Finanças, fez por estes dias.

Duarte Freitas é um político-político na pasta das Finanças que sucedeu a um político-técnico. E isso faz toda a diferença.

Duarte Freitas, conterrâneo que já critiquei inúmeras vezes, tem uma vastíssima experiência política. Ou não andasse nesta vida há décadas.

Essa experiência acumulada, conjugada com a habilidade para “jogar” com os alegados trunfos dos adversários, tem permitido fazer alguns brilharetes.

Quer no parlamento, quer no dia-a-dia. Ir a jogo com o Secretário das Finanças não está, por isso, ao alcance de todos.

O PS, através da sua cúpula partidária, tem apontado, quase diariamente, falhas e erros na área de atuação do ilustre Secretário das Finanças.

O PS, e bem, tem dito que o Governo não tem feito tudo ao seu alcance para dar resposta às necessidades das famílias e empresas açorianas.

O PS, acompanhado por outros partidos, está, nesta fase, apostado em passar a mensagem de que este é um governo ausente tendo em conta as inúmeras falhas. Falhas essas que, segundo o PS, apenas são agravadas com a já conhecida anteproposta do Plano.

E é aqui que se aplica a expressão que dá titulo a este texto. Perante “ataque cerrado” da oposição, o que fez Duarte Freitas? Na gíria futebolística, pode-se dizer que passou a bola ao PS. Passe esse feito em jeito de convite.

Duarte Freitas, também possuindo razoável conhecimento futebolístico, sabe que a bola queima nos pés do PS. O passado ainda está muito recente. A resposta “a culpa é do PS” ainda é muito válida.

Os erros e omissões do último ciclo de governação estão ainda na ponta da língua. A tudo isto ainda há que juntar o conhecimento que Freitas tem das sondagens e estudos de opinião feitos por cá recentemente.

Vai daí, Duarte Freitas não foi de modas e convidou o PS a viabilizar, com a abstenção, o Plano e Orçamento para 2023. E fê-lo, como se esperava, com a habilidade de um n.º 10.

Freitas trouxe para cima da mesa a pandemia, a guerra e o crescimento das taxas de juro. Simultaneamente, aproveitou ainda para recordar o sentido de voto (abstenção) do PSD, por si liderado, em matéria de orçamento, aquando da crise que se registou em 2013-2014 e, mais recentemente, em 2020, em sede orçamento suplementar apresentado para acomodar as medidas de combate à pandemia.

Feito este enquadramento, Freitas lançou então o convite ou apelo ao PS nos seguintes termos: “ponham a mão na consciência e deem a mão ao Governo dos Açores para resolver os problemas que herdámos e aqueles que agora se acumulam por via destas crises.” Duarte Freitas sabe que isto até pode soar aquilo que muitos interpretam.

Mas sabe mais do que isso. Sabe que se aquilo acontecer mesmo, será fácil, muito fácil, sair com a bola redondinha.

Mesmo que a bola, aparentemente, não esteja nos pés do governo…

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