Opinião: Hernâni Bettencourt | Sim, Senhor!

Esta é a curta frase que um qualquer triste e fraco chefe mais adora ouvir. O chefe não quer ou nem sequer dá margem para um “mas e se…”.

Não, o chefe não aceita qualquer proposta ou ideia que não siga acriticamente o que ele decidiu. É assim e mais nada. O chefe manda e os outros obedecem. E haverá sempre outros e outros e outros… Isto talvez seja um resquício de quase meio século de ditadura, mas vem a propósito de uma conversa à volta do mítico Vítor Damas e do mundo futebolístico e não só…

Vítor Damas, para além das incríveis qualidades enquanto guarda-redes, ficou desde cedo conhecido pela sua irreverência e forte personalidade. Essas suas características fizeram com que não tivesse feito o percurso profissional, quer no Sporting Clube de Portugal, quer na seleção nacional, que a qualidade demonstrada dentro das quatro linhas antevia.

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Vítor Damas, quando confrontado com as suas lutas, dizia sempre que não podia ter sido de outra forma. E a verdade é que ele tinha razão. Quem dizia que “preferia morrer teso e desgraçadinho do que pisar a passadeira desenrolada pelos serviçais” não podia, de facto, assistir impávido a tiranias de pequenos aprendizes de ditadores.

Vítor Damas tinha sempre opinião. Até quando concordava, acrescentava sempre qualquer coisa. Isto é algo que um chefe não gosta. Um chefe não gosta de ser interrompido e muito menos contrariado. Um chefe fala para se ouvir. Um chefe adora palmas e palmadinhas nas costas. Um chefe, nos dias de hoje, adora grupos e grupinhos nas redes sociais. Aí não faltam os “serviçais” de que falava Damas.

Estes são os tais outros. Aqueles que bajulam e apenas amplificam a mensagem do chefe. Nunca ousam sequer questionar o mínimo que seja. Não toleram a crítica. Irritam-se com a concordância a esta crítica.

Barafustam com o reconhecimento de algo de bom feito pelos “inimigos”. Acham inconcebível um elogio a um dos “inimigos”. Este “serviçais” estão a fazer um péssimo trabalho. Estes pobres “serviçais” confundem chefe com líder. Mas fazem-no propositadamente e sabem porquê?

É que um líder não quer “serviçais”. Um líder não cria uma barreira ou divisão entre ele e os outros. Um líder diz nós e não eles. Um líder dispensa grupos e grupetos. Um líder abomina pessoas acríticas. Um líder não tem inimigos. Um líder age naturalmente. Um líder não se impõe. Um líder é reconhecido pelos seus pares.

Vítor Damas era um líder que, vendo bem, se recusou a ser chefiado por serviçais. É que é preciso ter sempre presente que um chefe é sempre, sempre, um mero serviçal de outrem. Isto não daria para bonequinhos com imensas palmas e outros símbolos no WhatsApp, mas devia dar para muita gente corar…

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