Opinião: Hernâni Bettencourt | Sai uns diamantes para a mesa do canto  

O assunto é muito sério, mas nada como uma boa dose de humor para abordar este tipo de matérias. Daí o título desta crónica.

Mas o humor fica por aqui. Ora bem, o que podia ser apenas do foro judicial, rapidamente passou para a agenda política.

E, daí, a passagem para contornos de assunto de Estado foi um saltinho. Passámos, portanto, de um inquérito sobre a eventual prática de vários crimes para a omissão de informação por parte do Ministro da Defesa ao Presidente da República. Refiro-me, como já perceberam, à Operação “Miríade”.

Como Advogado, ainda que a toga esteja arrumada há uns anos, tenho de ser o primeiro a defender a presunção de inocência, pelo que não farei aqui qualquer condenação sumária dos arguidos.

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Também não visarei a contra informação relativamente à ausência de informação prévia ao Presidente da República, na qualidade de Comandante Supremo das Forças Armadas. O ângulo que pretendo analisar esta mais recente polémica é outro. No fundo, pretendo ir à génese da questão.

O Estado Português, através de um contingente militar, integrou uma missão da ONU na República Centro-Africana. Não era apenas mais uma missão.

Tratava-se da maior e mais emblemática missão militar portuguesa no estrangeiro. O objetivo principal da missão era, de forma o mais direta possível, garantir a segurança a quem já não tem praticamente nada.

Mas a esta nobre missão, pelo que veio recentemente a público, temos de juntar uma gigantesca mancha. Mancha esta que se traduz numa dezena de detidos – militares e civis – ouro, muitos diamantes, droga e umas quantas viagens de aviões militares que escapam a qualquer controlo de bagagens.

Este é, sem qualquer dúvida, mais um exemplo do que o ser humano, sem princípios, valores e escrúpulos, é capaz de fazer.

Sei que não é caso único, mas fico sempre incrédulo com a malvadez do ser humano. É inconcebível e inaceitável existir no mundo gente capaz de fazer aquilo que alegadamente está aqui em causa.

A justiça, caso se prove a prática dos diversos crimes que constam do inquérito, fará o seu trabalho.

Mas a questão não fica resolvida. A questão central continuará por resolver. Infelizmente, o escritor australiano, John Marsden, continua a ter razão: “A maldade é uma invenção humana”.

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