Opinião: Hernâni Bettencourt | Ronaldo

Não tenho qualquer interesse na vida pessoal do cidadão Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro. A mim, na qualidade de apaixonado há mais de 3 décadas por futebol, interessa-me apenas o jogador Cristiano Ronaldo ou o CR7.

Esse jogador, no dia 7 de outubro de 2002, proporcionou a um jovem estudante da Faculdade de Direito de Lisboa que fosse testemunha de um pedaço da História Mundial.

Esse jovem, frequentador assíduo do então velhinho Estádio José de Alvalade, viu, ao vivo, numa fria noite de segunda-feira, o primeiro golo oficial de Cristiano Ronaldo.

O miúdo de 17 anos recebeu a bola a meio campo e, sem pedir licença ao amigo Ricardo Quaresma ou ao consagrado goleador de seu nome Mário Jardel, só parou de correr e de driblar adversários com a bola a bater nas redes de João Ricardo.

É este o nome do guarda-redes que sofreu o primeiro – de mais de 800 até à data – golo marcado por Cristiano Ronaldo ao nível sénior.

Nessa noite, obviamente, ninguém podia imaginar a carreira que aquele miúdo franzino iria fazer. Todos aqueles que acompanhavam o futebol já tinham ouvido falar de Cristiano Ronaldo. Mas o que não faltam são craques (promessas de) até aos 17 ou 18 anos que não conseguem singrar.

Ronaldo era diferente. E até tinha ao seu lado outro jovem craque (Quaresma) que já tinha sido decisivo na conquista de um campeonato nacional e que tecnicamente era diferente de Ronaldo. Mas Ronaldo, para quem via os treinos, tinha outro tipo de argumentos. A vontade, o querer e a paixão pelo jogo estavam lá em doses exacerbadas.

Nesta mesma época, por motivo de obras no estádio da Luz, o Benfica recebeu o Sporting, em maio de 2003, no Jamor. Recordo-me deste jogo pelas lágrimas de Ronaldo. O miúdo não teve lugar nos 18 escolhidos por Boloni e viu o jogo na bancada. Passou bem pertinho de mim. Estava de rastos. O Sporting, que até ganhou esse jogo, já não passaria do 3.º lugar. Mas não era isso que estava em causa.

As lágrimas de Ronaldo demonstravam outra coisa. Qualquer outro jovem da formação viria com um sorriso nos lábios.

Ronaldo sempre quis ser diferente desses outros jovens. Ronaldo sempre lutou mais. Ronaldo sempre correu mais. E, estou certo, que ter assistido da bancada, naquela noite, a um golo e uma bela exibição do amigo Quaresma contribuiu para uma revolta interior que sempre marcou a sua carreira.

Tenho a certeza que Ronaldo pensou, de imediato, que se o deixassem fazer aquilo que mais gostava também partia a louça toda. E até marcava mais golos. Esse pensamento, conjugado com uma capacidade impar de trabalho, fez com que 3 meses depois, em agosto de 2003, na inauguração do novo Estádio de Alvalade frente ao Manchester United, Ronaldo tenha dado um passo decisivo para a “imortalidade”.

O resto é História… E não há momento mais negativo ou entrevista mais polémica que diminua o papel de Ronaldo na História. O jovem estudante de 2002, que hoje escreve este texto, apenas quer dizer o seguinte: Eu estava lá quando tudo começou. Obrigado, Ronaldo!

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