Opinião: Hernâni Bettencourt | Holiganismo político

De vez em quando gosto de me perder pelo submundo das caixas de comentários das redes sociais. Sei bem ao que vou, mas a verdade é que regresso sempre pior do que esperava. O meu “menu” tem sempre jornais e páginas, grupos e afins dedicados a política e a futebol. O nível do lamaçal é muito parecido. Quer no comentário político, quer no comentário desportivo, são muito raras as análises minimamente racionais. Os “experts” do teclado são profissionais do ódio a quem pensa e atua de forma diferente. Nada do que vem dos outros partidos ou clubes é analisado com um mínimo de imparcialidade. Até uma qualquer ação de solidariedade ou um mero treino dos outros clubes é objeto da ira e de um verdadeiro bombardeamento de disparates e insultos. E este tipo de ações ganha contornos de verdadeira doença quando é feito em páginas de apoio ou até mesmo nos sítios oficiais dos outros partidos e clubes. Não é normal, pelo menos para mim, que alguém do partido ou clube A vá despejar as suas frustrações para a “casa” das suas vítimas preferidas. Não sei se isto deixa os seus autores com o dia ganho. Da minha parte fico deveras preocupado. Este fundamentalismo é o espelho de uma sociedade cada vez mais pobre de valores. O futebol há muito que deixou de ser um desporto.

A política, cada vez mais pejada de comentadores e escribas que até vieram do submundo do futebol, também há muito que deixou de ser um campo para senadores, pensadores e defensores dos mais desfavorecidos. Aquilo que leio e vejo por aí dá razão a Voltaire que escreveu que “A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano”. Não quero com isto dizer que quer na política, quer no futebol, não haja lugar para a crítica ou para a rivalidade. Para o confronto de ideias, projetos ou rumos. Para discussões mais acesas ou apaixonadas. Tem de haver espaço para isso tudo. Tal como tem de haver lugar, sempre, sempre, para o humor ou ironia. Ironia que, nas palavras sábias de Victor Hugo, é por “onde começa a liberdade”.  Mas tudo isto tem de ser conjugado com respeito pelo outro. Infelizmente, o respeito é “coisa” que ou não existe ou está em vias de extinção nas tais caixas de comentários. A regra é o insulto barato e até, se o autor for um daqueles infelizes “heróis” sem foto, uma inaceitável violência nas palavras. Tudo isto é muito triste e faz-me lembrar os chamados ultras ou radicais das claques de futebol. Aqueles adeptos que vão para os jogos mais mediáticos de cara tapada, a gritar insultos à equipa adversária e que se deslocam para o estádio sob apertada escolta policial. Estes alegados adeptos não estão ali pelo jogo. Nem sequer pela sua equipa. A causa deles é outra. Infelizmente essa causa alastra-se, a cada dia que passa, para o campo político.

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