Opinião: Emanuel Furtado | Incongruências e … trincheiras

Política e afins

Este início de 2021 tem sido um pandemónio. Não obstante os casos positivos do vírus pandémico que fomos observando ao longo dos últimos meses de 2020, começamos o ano 2021 com 435 casos positivos ativos na Região, 339 dos quais na ilha São Miguel, com 117 pertencentes ao concelho da Ribeira Grande e, destes, 89 na Vila de Rabo de Peixe.

O segundo período letivo tinha começado com toda a tranquilidade no dia 4 de janeiro, com alguns receios, é certo, mas, para espanto de todos, na sexta-feira seguinte, dia 8, foi decretado o ensino à distância para todas as unidades orgânicas e níveis de ensino na ilha de São Miguel.

À data dessa determinação, existiam 564 casos positivos ativos na Região, 519 dos quais na ilha de São Miguel, com 220 pertencentes ao concelho da Ribeira Grande e, destes, 178 na Vila de Rabo de Peixe.

Ao longo dos dias seguintes, os casos foram aumentando até atingir o valor máximo até hoje registado e, no dia 18 de janeiro, registaram-se 916 casos positivos ativos na Região, 882 dos quais na ilha de São Miguel, com 547 pertencentes ao concelho da Ribeira Grande e, destes, 419 na Vila de Rabo de Peixe. Destaco estas “zonas” pelo facto de, tendo em conta a sua posição relativa, ser onde se observavam os maiores valores de casos ativos positivos de infeção pelo vírus pandémico.

Com esta evolução dos casos ativos e com a testagem em massa, designadamente em Ponta Garça, no concelho de Vila Franca do Campo e Rabo de Peixe, no concelho da Ribeira Grande, atingiram-se esses valores, não oferecendo grandes dúvidas sobre a importância da adoção de medidas restritivas para combater a propagação do novo coronavírus SARS-CoV-2. Essas medidas são, desde logo, muito penalizadoras para a população em geral, mas muito perniciosas, essencialmente, para os empresários e seus trabalhadores e para as crianças em idade escolar que deixaram de ir à escola, com enormes prejuízos para as suas aprendizagens. Não obstante eram necessárias.

Mas façamos uma análise mais fina ao concelho da Ribeira Grande que, sem grandes discussões, foi o mais prejudicado com as medidas impostas.

O concelho da Ribeira Grande representa cerca de 24% da população da ilha de São Miguel. Rabo de Peixe representa cerca de 30% do concelho da Ribeira Grande. A zona centro e poente (exceptuando Rabo de Peixe) representa 53% do concelho da Ribeira Grande e a zona nascente (que é composta por 6 freguesias: Porto Formoso, São Brás, Maia, Lomba da Maia, Fenais da Ajuda e Lomba de São Pedro) representa cerca de 17% da população da Ribeira Grande.

Julgo ser importante, neste momento, termos atenção aos números anteriores.

No que toca aos casos positivos ativos pelo novo coronavírus SARS-CoV-2, com reporte a valores desde o início de 2021, o concelho da Ribeira Grande teve uma média de aproximadamente 52% durante o mês de janeiro e de cerca de 75%, durante o mês de fevereiro, e até à data em que escrevo este artigo, em relação aos casos ativos verificados em São Miguel.

Dentro do concelho da Ribeira Grande, temos assistido a algo de curioso. No mesmo período, Rabo de Peixe, que volto a referir tem cerca de 30% da população do concelho, teve uma média de cerca de 77% dos casos ativos; no centro e zona poente do concelho observou-se uma média de 21,5% e, na zona nascente, cerca de 1,5%, durante o mês de janeiro. Em fevereiro, e até à data em que escrevo este artigo, Rabo de Peixe passou a apresentar uma média de 88,5%, no centro e zona poente, 10,6% e, na zona nascente, não chegou a 1%, com 0 casos ativos desde o dia 8 de fevereiro.

Ora, com estes dados, cuja fonte é a Direção Regional da Saúde, facilmente concluímos que, mormente, a zona nascente do concelho foi claramente prejudicada, sob todos os pontos de vista e, sem grande justificação, à custa de uma freguesia onde alguns indivíduos se comportaram de forma irresponsável e atentatória da saúde pública.

A 1 de fevereiro, foi retomado o ensino presencial, com exceção dos concelhos da Ribeira Grande e de Vila Franca do Campo. Contudo, em bom rigor, a zona nascente do concelho poderia ter voltado, também, ao ensino presencial, com os benefícios que todos conhecemos e que daí decorriam.

Ainda a propósito do ensino à distância, na semana que passou, assistiu-se a algo de inédito. Um professor de História lecionava uma aula, via plataformas informáticas, sobre o tema do neonazismo e, como comentário lateral, referiu que alguns neonazis (os mesmos identificam-se como tal) aderiram ao Partido Chega. Um pai/encarregado de educação gravou a aula (o que é ilegal) e publicou nas redes sociais. Logo vieram os abutres pedir a “crucificação” deste professor.

No próximo artigo voltarei a este assunto, com mais propriedade.