Opinião: Emanuel Furtado | Figuras tristes

Política e afins | A linha vermelha foi ultrapassada pelo PSD, pelo CDS-PP e pela IL.

Esta semana foi particularmente quente politicamente, tendo vindo à tona a forma como o acordo para a formação de uma maioria política no Parlamento dos Açores e, consequentemente, para a governação das ilhas, foi gizado.

E ficamos todos a perceber que esta negociação, do PSD com o Chega, foi feita de forma muito empenhada nos gabinetes de São Bento, por ambas as direções partidárias.

E, por esse motivo, a liderança do PSD nacional esteve sob fogo cerrado, tanto pela esquerda política como pela direita, que se intitulou, de democrática e liberal, a direita tradicional.

Houve mesmo 54 personalidades assumidamente de direita que escreveram uma carta aberta, onde se pode ler que não contestam “a legitimidade dos novos movimentos de direita, nem ignoramos as razões de descontentamento e exasperação dos seus apoiantes. Mas não se responde à deriva com a amálgama.

É preciso deixar bem claro que as direitas democráticas não têm terreno comum com os iliberalismos.

É essa clareza que defendemos.” Referem, mesmo, que “uma coisa é os movimentos nacional-populistas, xenófobos e autocráticos assumirem aquilo que são; outra, mais grave, é o espaço não socialista deixar-se confundir com políticos e políticas que menosprezam as regras democráticas, estigmatizam etnias ou credos, acicatam divisionismos, normalizam a linguagem insultuosa, agitam fantasmas históricos, degradam as instituições.”

Quanto a esta matéria, não há dúvidas. A linha vermelha foi ultrapassada pelo PSD, pelo CDS-PP e pela IL.

Vendo as críticas avolumarem-se a cada dia, diversas personalidades encetaram um esforço, penso eu que inglório, em comparar o PCP e o BE de um lado com o Chega do outro.

Do meu ponto de vista, não há comparação possível. Uma coisa são as diferenças de pensamento sobre a organização política, económica e social do Estado ou mesmo sobre as alianças do país em matérias de defesa comum; sobre a construção europeia, no seu todo, ou sobre a moeda única em particular.

Todos os partidos têm posições distintas (à exceção do PS e do PSD que pensam mais ou menos o mesmo) e isso é salutar numa democracia. Outra coisa são as propostas atentatórias à dignidade da vida humana, como o regresso da pena de morte e a pulsão por vigiar e confinar grupos étnicos. Estaremos todos bem lembrados da tentativa de mandar para “a sua terra” a deputada Joacine, de nacionalidade portuguesa e bissau-guineense, por muito que se goste ou não politicamente dela.

Os ataques ao multiculturalismo eram uma barreira que nunca nenhum partido tinha ultrapassado. E essas diferenças não são equivalentes. É confundir a beira da estrada com a estrada da Beira.

É, pois, por isso, preciso reafirmar que a falta de verticalidade não pode ser um vazio onde tudo pode caber, mesmo a amoralidade.

Voltando ao acordo, ficamos também a saber que Marcelo Rebelo de Sousa “mandou” o Representante da República para os Açores, o embaixador Pedro Catarino, indigitar o líder do segundo partido mais votado para que não se perdesse tempo com aquilo a que os juristas intitulam de “atos nulos ou anuláveis”, ou seja, ser o Parlamento a decidir sobre quem governa, e isto não é uma questão de somenos!

Com esta atitude, Marcelo transforma esta figura num fantoche político, e, se dúvidas houvesse sobre os seus posicionamentos, fica a demonstração clara sobre o seu pensamento centralista.

Não consigo imaginar que os socialistas possam sequer pensar em votar em Marcelo que, mesmo assim, certamente será reeleito.

Sobre toda esta amálgama, Bolieiro, no seu estilo inconfundível, não disse uma palavra.

Por fim, a nova AD. Por muito respeito que tenha (e tenho) pelas personalidades políticas em questão, comparar Francisco Sá Carneiro, Diogo Freitas do Amaral e Gonçalo Ribeiro Telles a José Manuel Bolieiro, Artur Lima e Paulo Estevão, é como comparar o dia com a noite.

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