Opinião: Emanuel Furtado | Dos debates…

Política e afins

A par com o começo do novo ano, teve também início os debates televisivos, a dois, entre todos os candidatos às eleições presidenciais de dia 24 de janeiro. O país político, como não poderia deixar de ser, acompanhou efusivamente todos os debates. Contudo, o país real manteve-se alheado, estou em crer. Muito pelo facto desses debates não terem sido todos transmitidos em canal aberto.

Em primeiro lugar, é preciso referir que estamos perante dois tipos de candidaturas: As candidaturas autênticas, personificadas por Marcelo Rebelo de Sousa e Ana Gomes, e as candidaturas que visam quase exclusivamente para fixar o seu eleitorado, representadas pelos demais candidatos.

Regra geral os debates pautaram-se por uma enorme cordialidade, com exceção de um pequeno episódio ou outro. A grande exceção teve lugar nos debates com André Ventura que, mais com os candidatos da esquerda do que com os da direita, optou por um registo trauliteiro, lamacento, com insinuações baixas e torpes, como se ele fosse o puro e os outros os impuros. Todos foram unânimes em, de forma mais expressiva ou implícita, demonstrar que Ventura é um habilidoso que não tem qualquer convicção política, um xenófobo, racista e “troca-tintas”. A alegoria das pedras de Vitorino Silva terá sido o momento alto do debate com André Ventura. Deixou-o completamente sem palavras.

Portanto, esses debates foram perfeitamente previsíveis e no limite quem ganhou foi, sem dúvida, a democracia.

Quanto aos candidatos propriamente ditos: Começando com Vitorino Silva, conhecido, desde há muito, como “Tino de Rans”, é um homem afável, bem-disposto, uma espécie de António Aleixo popularucho, com as suas figuras de estilo linguísticas. Teria condições para exercer o cargo? Claramente, não.

Tiago Mayan Gonçalves, candidato apoiado pela Iniciativa Liberal, tem vários problemas, desde logo, falta de empatia, comunica muito mal, está agarrado à cartilha neoliberal e tem uma profunda aversão a tudo o que é público. Teria condições para exercer o cargo? Os mínimos olímpicos.

André Ventura, apoiado e presidente do Chega, pelo que se viu nos debates, é um homem sem qualquer convicção política. Tão depressa defende uma posição como a sua contrária. Não é capaz de travar um debate civilizado e com elevação. Teria condições para exercer o cargo? Claro que não!

Marisa Matias, apoiada pelo Bloco de Esquerda, é uma mulher com grande consistência política. Ainda assim, fazendo uma comparação com 2016 está muito aquém do que seria expectável. Também por isso é uma candidatura redundante, já que disputa algum eleitorado com Ana Gomes. Teria condições para exercer o cargo? Atualmente não.

João Ferreira, candidato apoiado pelo PCP e pelo PEV, é um homem bem formado, com muita consistência política, esteve muito bem nos debates – mesmo no debate com Ventura – , dizendo ao que vinha, sem nunca deixar de referir a forma como vê os poderes constitucionais do Presidente da República. Teria condições para exercer o cargo? Sem dúvidas.

Ana Gomes, apoiada pelo PAN e pelo Livre, é uma mulher que apresenta muitos pergaminhos históricos, desde logo, o seu empenho e persistência na causa timorense nos finais dos anos 90 e início dos anos 2000, enquanto embaixadora de Portugal na Indonésia. Tem o problema de não ter o apoio oficial do PS. Ainda assim, não se pode indignar com as insinuações vis de Ventura e usar o mesmo tipo de tática com Marcelo Rebelo de Sousa. Teria condições para exercer o cargo? Sim, mas deve moderar-se em alguns assuntos.

Marcelo Rebelo de Sousa, recandidato e apoiado pelo PSD e pelo CDS-PP, é, pelas razões óbvias, o mais preparado de todos os candidatos. Apesar de estar numa condição mais difícil, tem gerido bem a sua dupla condição de candidato e presidente em exercício. A par com João Ferreira, é quem fala constantemente dos poderes constitucionais do presidente. Escusado será perguntar se terá condições para exercer o cargo…