Opinião: Emanuel Furtado | Das aparições… e das figuras do ano…

Política e afins

A poucos dias do Natal, o país assistiu a duas aparições: Cavaco Silva e Passos Coelho. Se fosse combinado, ninguém acreditava…

O primeiro aparece com o seu ar de “ilustre sabedor” a anunciar ao país, através do seu 24.º livro (imagine-se, o 24.º livro…), que tudo o que se tem feito é “um erro”, um erro colossal… Aliás, afirma mesmo, do alto da sua cátedra, que só os seus governos aplicaram o modelo social-democrata. Faz, até, uma acérrima defesa de Pedro Passos Coelho, esse sim, o grande reformista aplicador-mor do modelo da social-democracia. Bom, para quem não faz a mínima ideia do que é a social-democracia, pode até achar que sim  Ora, a social-democracia não é propriedade do PSD. Não é, nem nunca foi. E, parece-me que, com a nova linha de atuação, de mãos dadas com o Chega, será tudo menos social-democrata. Portanto, Cavaco Silva, que deixou a Presidência da República com a sua popularidade pelas ruas da amargura, será um eterno ressabiado.

Já Passos Coelho, com o seu ar messiânico, que representa um espaço político que atualmente se encontra órfão, optou por vir fazer uma radiografia do país. Abordou assuntos como a TAP, a economia, a educação. Mas o assunto que mais eco teve foi o do caso da morte de um cidadão ucraniano nas instalações do SEF. E diga-se que, neste contexto, não é concebível que um cidadão, um ser humano, seja ele de onde for, seja torturado e morto pelas “mãos” de um Estado democrático. Não era possível a continuação do ministro Cabrita. Mas como diz o ditado popular “depois de comer não faltam colheres”.

Mas mais que as palavras de Passos Coelho, o mais relevante foi as reações à volta desta terceira aparição… Rui Rio, como das outras vezes, não escondeu o nervosismo. Por outro lado, e ao que consta, houve grandes agitações nos sectores mais saudosistas, com diversas personalidades da direita portuguesa a movimentarem-se para que Passos regresse à vida política ativa. Ventura, por seu turno, fez-lhe rasgados elogios e fez votos para que regresse, esquecendo-se, ou não, que o regresso do seu criador pode afetar muito o seu crescimento.

Quanto às figuras do ano, pela positiva e nível nacional, a figura do ano foi, no meu ponto de vista, a ministra da saúde, Marta Temido. Ao longo de todo este tempo pandémico, poucas foram as vozes que se levantaram em defesa da ministra. Mas o que é facto é que fez um trabalho muito meritório na gestão da pandemia. A nível regional, e pelas razões que todos conhecem, foi o ex-diretor regional da Saúde, Tiago Lopes. Não obstante o erro que cometeu com a saída “apressada” da pasta, foi quem deu a cara e o “corpo às balas” em toda a gestão da pandemia nos Açores. Quanto à figura coletiva do ano, tanto a nível regional, como nacional ou mesmo internacional, a minha escolha recai sobre todos os profissionais de saúde que estiveram na linha da frente, sem descanso, no combate à pandemia.

Pela negativa, a nível nacional, é o líder do PSD, Rui Rio. As razões são diversas, mas destaco essencialmente duas. Primeiro, a sua atuação enquanto líder da oposição ao governo tem sido tíbia, desabrida, errática, ziguezagueante e inconsequente perante os erros que o governo tem cometido. Pior, sem qualquer estratégia política. Segundo, por ter aberto a caixa de pandora e ultrapassado algumas linhas que o PSD entendia como vermelhas num entendimento com o Chega. Já a nível regional, a figura negativa do ano é José Manuel Bolieiro, não per si, individualmente, mas por se ter deixado capturar por diversos interesses revanchistas e oportunistas dentro do PSD Regional.  Além disso, e para quem tão duramente criticou os governos do Partido Socialista pelas supostas nomeações com base em relações familiares, não restam dúvidas que, em pouco mais de um mês de novo governo, a lógica das nomeações tem tido por base, quase exclusivamente, as relações familiares… Fica muito mal.

Bom ano 2021!